Apesar das precauções, contraí covid-19

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Desde meados de março de 2020, ficamos em casa, eu e minha esposa, notadamente por integrarmos grupo de risco, com idades acima dos 70 anos. Procuramos nos resguardar de todas as possíveis ameaças: ficar em casa o máximo possível, não receber visitas e evitar contato físico direto com pessoas. E quando alguma aproximação se fazia inevitável, sempre usávamos proteção: máscara, distanciamento físico regular, higienização com sabão e álcool gel, tudo segundo recomendações das instituições de saúde.

Após seis meses de isolamento, tudo parecia sob controle. A pandemia já começava a dar sinais de estabilização, o que alentava a esperança de que o vírus estava perdendo forças e sendo, enfim, dominado. Preces e mais preces de louvor e agradecimentos eram endereçadas ao Salvador. Os templos já estavam autorizados a receber fiéis, embora com limitações quantitativas de pessoas, para os cultos habituais.

Foi aí que aconteceu o inesperado. No dia 12 de setembro de 2020 comecei a sentir os sintomas de tosse, indisposição e fraqueza. De imediato o organismo se mostrou debilitado. Porém logo obtive uma pequena melhora, suficiente para imaginar que tudo se achava dentro da normalidade e que não havia nada preocupante.

No dia 15 fui encaminhado para o Ânima Centro Hospitalar, na cidade de Anápolis, onde, esgotados os procedimentos de praxe, fui diagnosticado e internado com Covid-19, para tratamento e combate rigoroso ao vírus demolidor.

Confesso que não me recordo de muita coisa, talvez por causa do efeito de tranquilizantes. Lembro-me bem quando o maqueiro ajudou a colocar-me na maca e me conduziu até o apartamento, subindo rampas. Daí em diante, são muito vagas as lembranças de permanência no leito hospitalar, que durou entre 15.09.2020 até 20.09.2020, com alternações de dores, ansiedade, diarreia e apagão geral da mente, sem que nada pudesse ser resgatado.

Nos dois primeiros dias, recordo-me de um sangramento nasal de altas proporções, em que tive como certa a morte por esgotamento, mas que a equipe hospitalar conseguiu estancar a tempo. Mencione-se que os exames de sangue negaram qualquer conexão do sangramento com a Covid-19, o que de certa forma não deixou de ser um alívio.

Lembro-me com precisão de uma das visitas médicas ao meu leito, em que o Dr. Hans, vendo a minha tensão e ansiedade, ponderou: “Fica calmo e tenha paciência que o resto nós faremos”. Eu retruquei, alegando que estava difícil de suportar, que achava que ia morrer. Foi aí que ele abriu o jogo e me falou: “Você está bem. Dê graças a Deus por estar nessa situação. Aqui no hospital há pessoas agonizando na Uti e, dentre elas, várias entubadas. Você está bem. Seu organismo está reagindo bem com a medicação. Portanto, não há motivo para pânico”. E repetiu a frase anterior: “Fica calmo e tenha paciência que o resto nós faremos”.

Eu entendi claramente que pouco se sabe sobre o Coronavírus, mas que já existe um tratamento padronizado cuja eficácia dependerá excepcionalmente das reações do organismo do paciente detentor do vírus. Uns reagem mais rápido, outros menos e outros não apresentam reação alguma. Entendi também que o pânico é inimigo da cura, e nessas condições, o que o paciente poderá fazer é ter paz de espírito, fé e acreditar na força da oração. No mais, Deus se servirá dos profissionais da saúde para nos curar, se for da vontade dEle.

Realmente não é fácil manter o equilíbrio nessa hora de dor e sofrimento. Como exigir equilíbrio do ser humano na hora do medo e do pânico, em que percebe que suas forças vão cedendo lugar ao desânimo, à ansiedade e à expectativa de perda da vida, mesmo cercado de todos os recursos humanos possíveis?

Recordo-me de um fato que merece registro. Foi na terceira noite. Acordei, olhei no relógio e li: 5h58min. O dia está amanhecendo, pensei. Olho de novo no relógio e constato que não eram 5h58min, mas 58min, isto é, pouco depois da meia-noite. Minha acompanhante dormia. Em meio ao silêncio, deu-me a impressão de que vozes em forma de sinais ou cochichos eram proferidas à minha volta, ora pela direita, ora pela esquerda, ora pela minha frente. Mas não conseguia vislumbrar nada, embora não tivesse dúvidas sobre uma movimentação sutil ali no quarto.

Alucinação? – imaginei. Porém não era o caso, eu estava lúcido, já tentando decifrar e digerir os acontecimentos funestos. E os sinais continuavam em volta de mim, como troca de ideias e confabulações. Porém de forma camuflada e inatendível. Pareciam várias pessoas confabulando em vários cantos do apartamento, mas eu não via nada nem ninguém e não entendia aqueles sussurros proferidos em forma de galhofas, mais parecendo aquelas conversinhas paralelas e indesejáveis de velório.

Passados uns 20min e já bastante perturbado com o que acontecia naquela hora, veio bastante forte em mim a presença de vários demônios ali reunidos, dando a impressão de que aguardavam com regozijo e muita alegria o desfecho daquela internação, da minha internação, da minha vida que agonizava.

Foi aí que me dei conta daquela situação e, simplesmente, bradei em voz baixa: Vão embora daqui, seus demônios, este lugar não pertence a vocês! As almas que sofrem de Covid-19 e outras doenças neste hospital são abençoadas por Deus, são almas que vão para o céu! Vocês não têm poderes aqui! Podem ir embora o mais depressa possível! Vão embora, em nome de Jesus!… Em seguida rezei o credo. E o silêncio tomou conta do ambiente. E eu dormi logo em seguida, sentindo muita paz no coração.

Coincidência ou não, o certo é que a partir daí as coisas começaram a mudar completamente, para melhor. A ansiedade e as dores foram se aplacando aos poucos. Quando me perguntavam se eu estava bem, respondia positivamente, com convicção, porque me sentia bem de verdade. Deus operou o milagre.

A propósito, torna-se difícil descrever o trabalho desenvolvido pelos profissionais de saúde, em assistência aos desafetos do Coronavírus. De início, pude presenciar um trabalho que vai além de todas as limitações humanas e profissionais. Um verdadeiro sacerdócio que, com certeza, tem a aprovação de Santa Tereza de Calcutá.

Sem nenhum preconceito, mas cercados de todo cuidado possível, os servidores da saúde não poupam esforços até mesmo para proporcionarem amparo físico ao doente, sabendo-se que com tal desprendimento estão sujeitos a contrair o vírus. São pessoas simples, que em seus atos conseguem demonstrar serenidade, proteção e amparo, esperança e alívio às vítimas da Covid-19. Contemplando os médicos e as enfermeiras em ação no hospital, a impressão que passa não é outra senão de sobrenaturalidade. Parecem pessoas sobrenaturais a quem Deus confiou uma missão específica e grandiosa de salvar vidas.

Chamou-me a atenção quando o Dr. Hans veio conversar comigo e me dar alta hospitalar. Comecei a agradecê-lo, mas não consegui, acabei envolvido e interrompido pelas lágrimas. Olhava em seu rosto e percebia com surpresa que ele estava tão emocionado e tão contente quanto eu.

Aproveito para homenagear e agradecer de coração os profissionais que me atenderam no Ânima Centro Hospitalar: Dra. Camila, Dr. Hans e os demais profissionais Ravylla Eduarda, Neusmar Júnior, Daniel, Simone, Dayana, João Paulo Gama, Terezinha, Eduarda (Duda).

Enquanto aguardava a liberação da internação hospitalar, causou-me impressão o comportamento da jovem médica que atendia a todos na sala de espera, que posteriormente vim saber que se tratava da Dr. Camila. Embora de máscara, o que dificulta mostrar todo o rosto e a expressão facial, parecia uma menina. Ela se aproximava de todos, conversava de maneira serena e atenciosa, levando a todos a retomar a calma e a paz. Lembro-me de um senhor que esta ali há várias horas e, numa ânsia de revolta, reclamava em voz alta, de forma agressiva. A Dr. Camila foi chamada e chegou logo em seguida, aproximando-se do paciente e proferindo palavras meigas e doces, até fazer com que ele se acalmasse.

A homenagem e os agradecimentos se estendem aos profissionais de saúde de Vianópolis, que com carinho e profissionalismo me deram a melhor assistência, antes e depois da internação hospitalar. São eles: Dr. Antonio, Dr. Sidon, Secretária de Saúde Juliana e os demais servidores: Tânia, Thaís, Marta e Carlos, além do acompanhamento das médicas amigas da nossa família, Dra. Geíres e Dra. Orlandina.