Bolsonaro, o duvidoso, não perde por esperar

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Nos últimos dias de preparação do 7 de Setembro, Bolsonaro se esforçou na prática da excitação de sua tropa de apoio, ou soldados rasos de senso crítico. Ou apaixonados de plantão. Ou ignaros. Tanto faz essa definição, na desordem dos dias. O bolsonarismo sopitou. Os arrepios de pele são evidentes demonstrações de paixão explícita. Mas isso é só um registro. Um ponto. Sempre assim, antes e depois. Agora, o ponto é Lula na Europa e Moro na fonoaudióloga.

A arma que o presidente utiliza nessas ocasiões é uma só: a da dúvida cruel. Ele mira no inconsciente coletivo que se ufana por sua prosopopéia fascista e atinge no âmago do ser eivado de fé, quando não ervado de qualquer coisa que, noves fora, nada.

O povo que ama cegamente Bolsonaro não vê problema em defender o pai ou a mãe que trai, como prescreve a lógica do machismo arraigado na familia, ou na convocação para o front nesta guerra em que eles se safam e você morre, se for capaz, ou na crença em Deus desde que pistola e cassetete estejam na mão, ou que são puros e estão autorizados a atirar a primeira pedra.

O que vê é o que não existe: traidores da Pátria que não é a deles em particular, mas a de todos; conspiradores que merecem o ódio e a morte, em nome de Steve Bannon ou quem for que ditar o conservadorismo de ocasião para as indústrias de armas, petróleo e mente torta à direita.

Tal povo é feito de mentes unidas, jamais vencidas, que não se entendem sobre o papel da Constituição e dos Poderes. E que ditam suas regras, suas condições, suas definições do que é certo para todos, embora nem todos concordem ou aceitem. Isso não lhes vem ao caso.

O STF, para eles, não é justo e digno; digno e justo seria um STF com ministros terrivelmente evangélicos e bolsonaristas. Como justos seriam uma Câmara e um Senado providos de apoiadores, pensamento igual por completo, e não divergentes por definição de pluralidade e dialética nacional.

Justo e correto é mudar tudo, na concepção de que está tudo errado, para fazer tudo certo segundo a vontade de Bolsonaro, e não da maioria. A maioria não importa. Como não importa se nessa maioria estão aquele que passam fome, sofrem com o preço do gás e da gasolina, e não podem mais comprar um quilo que não seja de osso, e olhe lá.

Tudo que não é o que definem ser, é inimigo de Brasil acima de tudo e Deus acima de todos. Ou sei lá a ordem correta da frase. Que vem a não ser o novo mandamento bíblico perdido, o sim, em verdade eu vos digo, e lembro, um slogan de propaganda política, eleitoral.

Se Bolsonaro governasse como entra na cabeça de parte da massa brasileira e faz campanha, o Brasil não estaria sendo derrotado por sua inépcia e sua retórica. Talvez seria o país vencedor que ele promete e não entrega desde a campanha passada, culpando por isso quem quer que seja, menos a incompetência, a letargia e a leniência de seu governo.

Uma boa notícia é que o 7 de Setembro tão somente comprova que Bolsonaro não é mais o mesmo para o País, ainda ainda seja exatamente o mesmo para o seu gado, digo, sua tropa de prontidão que, chamada, obedece como lhe convém: Sim, Senhor!

Você que se alimenta da dúvida de Bolsonaro, tem certeza do que está fazendo? Tem certeza de que ele combate a corrupção e não tem nada a ver com a corrupção em seu gabinete, no gabinete dos seus filhos, no Ministério da Saúde e no lobby como modus operandi familiar?

Você tem certeza de que ele defende a Pátria brasileira embora tudo faça para agradar a outro País que se apodera de nossas riquezas, em nome do capitalismo mundial? Certeza de que ele quer liberdade ameaçando colocar o Exército nas ruas para combater os seus adversários e aqueles que não rezam na sua cartilha?

Por aí. Não, não estou iludido em apelar à razão dos combativos apaixonados. Estou apenas cuidando de deixar registrado em letra maiúscula o que a História contará em letreiros sobre os que hoje vivem tocados pela paixão. Tocados mesmo, a caminho do abate em nome do interesse alheio, por indução de causa e efeito estratégico.

O 7 de Setembro que temos para hoje não é o ápice de um novo Brasil, mas o estertor do velho Brasil de guerra e farda, a luminosa essência do caudilhismo e suas consequências inevitáveis. Quem acredita que por aí libertamos o Brasil, está preso na armadilha das malditas ditaduras, e não na rede da bendita da democracia.

Repare nas ameaças contra a vida: elas estão ao alcance de todos. Repare nos arautos da moralidade: eles pregam o que não fazem. Repare nas defensores da renovação do poder: eles já estão empoleirados e se servindo de você para se manter.

Repare em você: sua imagem e semelhança não tem alma, nem voz, nem vez; você vai passar, eles ficarão. Repare: Bolsonaro não perde por esperar o seu heroísmo. Ele depende de você. Sem você, ele não existe. Você é a massa de manobra. Você é a razão do amor que o liberta para fazer o que quiser. Ele, não você, que perde por esperar. Espere pra ver.

*Publicado primeiramente em Goiás Notícia.