Sobre a fé miúda

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Vivemos tempos de muita fé e pouca fé. Pera. A frase não ficou boa. Vivemos momentos de fé demais no que não vale nada, e fé de menos no que importa. Eita. Também não ficou bom. Vivemos tempos tão complicados que não há fé que resista ao humor destes tempos sem graça, sem a graça de homens crentes uns nos outros.

Por conta de uma excessiva fé em pastores e padres e curandeiros de almas enfermas, deixamos de lado a boa fé nas intenções alheias. Só o que enxergamos é o inferno dos outros – ou da gente, na régua com que medimos quem vemos pela frente e pelas costas. Não vemos ao longe, muito menos um palmo à frente do nariz de Pinóquio, frase fácil, vida sem parágrafo; simplesmente não vemos.

Em razão da falta de fé na humanidade, perdemos a humanidade. Não damos crédito, embora nosso crédito seja proporcional ao que sonegamos de cristandade dos nossos irmãos em Cristo. Confiamos nossa alma a qualquer um, qualquer mensagem, a todo apóstolo do apocalipse político contrariado com os contrários, enquanto lançamos ao abismo das desinformações o nosso corpo a corpo oco de sentido.

Não há espírito público que sustente o espírito da divina ciência espiritual, a que transcende, não a que ressente e não transige. O espírito que eleva é o de Ícaro, que se põe mais alto que todos, sem chão de tudo. Os que argumentam com subida consistência não tem a consistência de um dízimo; não chegam jamais a uma oração sequer de distância da salvação. Aqui se faz e aqui não se paga; a conta não fecha, fica para depois, além.

Que fé é essa que nos faz tão destituídos de fé um no outro e diante do espelho? Que fé é essa que abala a fé que nos confronta? Que fé é essa que não dialoga, ao contrário, discute, debate e destrói em nome dos céus, mas que recompensa com o inferno na Terra? Que fé levamos no peito, se no peito bate a fúria, a voracidade das palavras e o fogo da vingança daqueles que se arvoram os donos da verdade e a vida?

Dirão os arautos destes tempos: minha fé não me representa; não está em mim, não está no outro, está contra mim e contra todos. Já eu vos digo: às fezes com vossas incrédulas ilusões!

*Publicado primeiramente em Goiás Notícia.