Antônio José Ferreira: “A sociedade tem muita dificuldade de conviver com o diferente”

Antônio José Ferreira cria podcast para discutir acessibilidade, diversidade e inclusão, e para estimular empatia sobre o assunto

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Podcast é um formato em alta nos últimos anos, principalmente no Brasil. Pensando neste crescimento, Antônio José Ferreira, Superintendente das Pessoas com Deficiência da Secretaria de Direitos Humanos e Políticas Alternativas de Goiânia, criou o podcast Acessos.

Ex-secretário nacional da pessoa com deficiência, jornalista, radialista e deficiente visual, Antônio aborda e debate de forma descontraída com convidados, temáticas sobre inclusão, diversidade e acessibilidade. Em entrevista ao Goiás Notícia, ele enfatiza a importância de tratar o assunto de forma natural para que o ouvinte tenha empatia e adote a causa das pessoas com deficiência.

Sara Cristina – Em que momento da sua carreira surgiu a iniciativa de criar o podcast Acessos?

O podcast surgiu do desejo de abordar e debater assuntos referentes à inclusão, diversidade e acessibilidade com pessoas que têm notório saber nestes temas. Eu sempre pensava em trazer essa discussão para a sociedade por trabalhar há muito tempo com direitos humanos.

Sara Cristina – De que forma o podcast contribui para promover a discussão deste tema tão relevante para a sociedade?

A sociedade tem muita dificuldade de conviver com o diferente. Nós vivemos questões referentes à intolerância, à falta de compreensão do outro. O podcast contribui com a sociedade na medida em que a gente discute e expõe essa temática. Queremos que o ouvinte tenha empatia e entenda os dilemas e desafios que as pessoas com deficiência enfrentam. Procuramos debater isso com sensibilização.

Sara Cristina – Mesmo diante do avanço da tecnologia e disseminação de informação pelas redes sociais, podemos considerar que a discussão deste tema pela sociedade ainda é falha?

A sociedade discute pouco essa temática. Quando as pessoas se deparam com o tema da diversidade? Quando é que as pessoas começam a discutir sobre isso? Quando tem alguém na família. O podcast busca trazer à tona essa discussão de forma natural e simples, com informações técnicas, além de apresentar as histórias de vida de nossos entrevistados.

Sara Cristina – Como pode existir, dentro de uma mesma sociedade, diferença de comportamento da população com relação à pessoa com deficiência?

Isso se resume a falta de empatia. As diferenças se dão pela fala de empatia e compressão do outro. Intolerância. A sociedade devia acolher a todos e compreender todos, mas faz justamente o contrário. Criamos estereótipos para o outro. Precisamos de compreensão. Precisamos que as pessoas mudem a forma de ver o próximo. A sociedade preza muito o estético. Existe uma alusão muito grande ao belo. O belo pode ser separado do estético. Por que uma moça que usa cadeiras de rodas não pode ser bonita? Porque estar em uma cadeira de rodas não é estético. Não deve ser assim. Precisamos começar a jogar fora os padrões e entender que as pessoas são plurais. São transversais. Não existe ser humano igual ao outro. A diversidade é bacana justamente porque somos diferentes.

Sara Cristina – A sociedade tem avançado na questão da diversidade e acessibilidade de alguma forma?

Acessibilidade é um assunto que temos avançado por conta das legislações vigentes. As garantias de direto que temos hoje, não tínhamos há 20 anos, por exemplo. É um trabalho de formiguinha. Pouco a pouco estamos avançando.

Sara Cristina – Goiânia aplica satisfatoriamente a legislação para a comunidade PCD?

Goiânia tem uma boa legislação. O difícil é obter compreensão por parte da população para cumprir essa legislação. Há uma falta de compreensão dos proprietários, principalmente dos estabelecimentos comerciais.

Sara Cristina – Sobre políticas públicas, o que pode e deve ser feito para assegurar ainda mais os direitos das pessoas com deficiência?

Política pública é feita com dinheiro público. Dinheiro público é dinheiro de todo mundo. As pessoas com deficiências também pagam seus impostos. Elas têm que usufruir das mesmas políticas. Isso é obvio. O problema é que, quem desenha as políticas públicas não pensa em todo mundo. Um exemplo: uma mulher com deficiência física não consegue fazer exames ginecológicos em uma unidade básica de saúde porque não temos macas adaptadas para essa paciente. Com isso surge todo o constrangimento de ter que subir, na maca, no colo de alguém. Isso é constrangedor e não devia ser assim. Essa paciente da rede pública paga impostos como qualquer outra. Sonhamos com o dia em que as políticas públicas atenderão a necessidade de todos. É para isso que trabalhamos.

*Publicado primeiramente em Goiás Notícia.