Eliton, Wolmir, Marconi, Gustavo e Vitor Hugo contra Caiado e o fim da terceira via em Goiás

À parte as teorias sobre o assunto, o fato é um só: a polarização está mais viva do que nunca, e a guerra neste momento em Goiás está mais para quem é Lula e quem é Bolsonaro do que pra definir o jogo.

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Da esquerda para a direita: José Elton (PSB), Walmir Amado (PT), Marconi Perillo (PSDB), Gustavo Mendanha (Patriotas), Victor Hugo (PSL) e Ronaldo Caiado (União Brasil). Foto: Montagem/Dannyllo Mourão.

Duas consequências da polarização eleitoral que vemos hoje no Brasil:

1) Travou o surgimento de uma terceira via – embora, na prática, terceira via seja algo mais de pré-campanha do que de campanha de fato. Um debate forte de realidade frágil;

2) Criou um problema para os pré-candidatos a governador, principalmente, porque ficar em cima do muro, que antes era uma estratégia esperta, para deixar toda negociação para o segundo turno, virou quase que morte anunciada. Um voo no escuro. Inclusive ficar como segundo apoiador, com o candidato oficial dos presidenciáveis polarizados aparentemente levando vantagem.

Claro, tudo tem senões e porquês que aguçam a curiosidade de observadores atentos. Em Goiás, o candidato oficial de Jair Bolsonaro (PL) ao governo, por ora, é o deputado federal Major Vitor Hugo (PL). Corre por fora o ex-prefeito de Aparecida, Gustavo Mendanha (Patriota).

Vitor Hugo é o menos goiano dos políticos goianos. Foi eleito em uma região conhecida como NEM – nem Goiás, nem Distrito Federal. É da intimidade do presidente, mas cristão-novo na vida dos goianos. E nada de pejorativo nesta observação. Goiás é sempre acolhedor aos imigrantes.

Questão é ele ser novato na política do Estado. Pode transformar isso em trunfo, como o “novo”? Pode. Mas não pode também. Gustavo Mendanha está na ordem do dia das lideranças, tem um mandato e uma reeleição vencedores pra mostrar e há tempos é o antagonista natural do governador Ronaldo Caiado (União Brasil).

Mas Caiado não é Bolsonaro? É e não é. Há, digamos, afinidade ideológica entre eles. Eleitorado comum, em muitos aspectos. O governador, no entanto, não se afina com o presidente em muitas práticas. Na luta contra a Covid, Bolsonaro fez o que fez, desdenhando e mostrando zero empatia com as mortes e acamados. Caiado fez o contrário: foi médico, o que é, zeloso da ciência e de sua responsabilidade social como governante.

Nos últimos dias vimos Caiado sendo vaiado por bolsonaristas durante visita do presidente a Goiás. O que fez o governador: lembrou que ele está em guerra contra ‘a esquerda’, o PT, há décadas, e que foi apoiador original da eleição de Bolsonaro. Bolsonaro deu de ombros. Caiado quer os votos da direita e extrema-direita, porém não quer o carimbo bolsonarista.

Temos, pois, três nomes disputando o bolsonarismo, cada um com seus considerandos na forma e no conteúdo. No bloco denominado esquerda, que de verdade é o palanque elástico de Lula, vimos o contrário. O candidato do PT está definido: Wolmir Amado. Ex-reitor da PUC-GO, Wolmir é um gestor, um nome ligado aos intelectuais. Não é um político, e muito menos conhecido.

Mas o PT já piscou várias vezes para outra possibilidade, outro nome, que pode vir de uma direita neoconvertida ao lulismo. Nesse ambiente surge o ex-governador José Eliton como alternativa. Não por ser ele um líder que arrebanhe seguidores com a luz de seu olhar, e sim porque ele ampliaria o metro quadrado do palanque para Lula no Estado.

José Eliton foi eleito vice-governador de Marconi Perillo (PSDB) filiado ao PFL, ex-DEM e atual União Brasil. Depois, migrou para o PSDB e perdeu a reeleição na saída de Marconi para disputar o Senado, em 2018. E perdeu para Caiado, que foi o seu padrinho na indicação para a chapa de Marconi lá atrás.

A explicação para Eliton estar na ‘esquerda’ (no PSB), ou entre os progressistas, é pragmática: ele é amigo e foi escolhido para tal por Geraldo Alckmin, que também era do PSDB e agora está no PSB, em um movimento calculado de estratégia política dele e de Lula. Seria então repetir em Goiás a matriz da aliança nacional. Bingo.

Tem um ponto nessa união, no entanto, que esquenta os bastidores: Eliton e Wolmir são nomes tidos como bons, mas não como eleitoralmente ótimos. Não arrastarão Lula e Alckmin; serão – se forem – arrastados por eles. Nessa matemática dos ganhos e perdas entra um outro nome: Marconi Perillo.

Marconi, que governou Goiás por quatro vezes, continua no PSDB. Retomou nos últimos meses a atividade política no Estado, depois de um tempo morando e trabalhando em São Paulo, após a derrota para o Senado. E vem deixando claro que pode ser candidato a senador, mas que sonha mesmo é com a volta ao governo. E faz isso se mexendo bastante, em eventos e encontros no interior, onde ainda é recebido como grande liderança.

Diferente de Eliton e Wolmir, Marconi tem grupo. Tem base. E olha isso: ele já disse em claro e bom som que não anda com o PT, mas – e um MAS maiúsculo – sua explicação para as denúncias contra ele é exatamente a de Lula: perseguição política. A Lava Jato é inclusive citada como paralelo da Cash Delivery, a operação que, na visão geral, o derrotou em 2018, já que deflagrada em plena campanha e desmoralizada agora.

Marconi talvez não seja o candidato de Lula. Não será o de Bolsonaro. Será o de Ciro Gomes, que patina nas pesquisas? Se for candidato numa aliança que reúna Eliton e Wolmir, encorpará o palanque, é no que os petistas acreditam. Feitas as contas, seria um ganha-ganha: Marconi teria e daria palanque.

De quebra, o tucano teria total autoridade pra firmar o discurso da perseguição que, ele repete sempre, foi feita contra ele por Ronaldo Caiado. E aqui outro ponto do ganha-ganha: Lula ganharia ainda com o fato de que Marconi é um nome que tira Caiado do prumo – tanto que são frequentes as indiretas do governador ao ex, nos discursos e entrevistas -; Marconi ganharia porque teria tempo de TV e palanque garantidos para este enfrentamento, que ele cultiva com gosto.

Marconi teria mais força para puxar a polarização com Caiado do que Gustavo. Neste ponto as teorias se abrem. Há quem acredite que sim, com não só Gustavo, mas os outros bolsonaristas desaparecendo naturalmente do jogo. E há aqueles que veem outro movimento: na briga entre Caiado e Marconi haveria espaço estratégico para Gustavo – ou outro, em tese – surgir como a alternativa ideal para o eleitor.

Gustavo – repito porque é nele que as apostas são maiores – ganharia a eleição como uma terceira via que vingou, neste caso? Ou como a segunda via mesmo, considerando-se que o objetivo de todos é um só, derrotar Caiado, independente de Lula e Bolsonaro? Uma outra aposta entre os que não querem a reeleição de Caiado é a unidade entre Eliton, Wolmir e Marconi numa chapa que teria o tucano não como candidato ao governo, mas ao Senado.

Veja que o jogo em Goiás está aberto e não é por acaso. E que o favoritismo do governador – que por si só tem sob seu comando a máquina do Estado, um MDB enraizado nos municípios e a liderança nas pesquisas conhecidas – é relativo. Não é rocha; é areia para cimento: vai depender da peneira. Os seus adversários que lutem. Resta saber se a luta será em vão. Ou não.

É recorrente o uso da tese, nos debates eleitorais, de que eleição nacional não interfere na estadual. Será? Ou será que mudou? À parte as teorias sobre o assunto, o fato é um só: a polarização está mais viva do que nunca, e a guerra neste momento em Goiás está mais para quem é Lula e quem é Bolsonaro do que pra definir o jogo. Os políticos, insisto, estão disputando isso, e não o acolhimento do eleitor. Que coisa, né.

*Publicado primeiramente em Goiás Notícia em 12 de maio de 2022.