8 de janeiro, o dia da desrazão nacional

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Dia 8 de janeiro é o dia da desrazão nacional. Ou dia dos zumbis da pátria. Ou dia em que uma gente brasileira entende como manifestação pacífica e democrática, embora o fim fosse a tomada de poder armada de paus e cacetetes. Ou dia em que os combatentes da causa política extrema juram ser o dia em que os adversários esquerdistas hastearam uma armadilha para fazer-se vítima de um golpe contra si mesmo. Ou dia da piada pronta.

Imaginem uma democracia fincada em bases militares, com poder de mando absoluto e sem dever público elementar. Imaginem uma sociedade que almeja ser libertada por aqueles que prendem seus direitos para garantir-lhes a cega obediência aos seus comandos, de acordo com sua ideologia, apesar da pregação anódina de zero ideologia, apenas e tão somente o cumprimento de preceitos definidos por seu senso: moral e cívica posição de seeenn-tido!

Pensem numa sociedade que quer demais, mais que a razão humana, uma vida de acordo com seus princípios, mas que só reconhece os próprios princípios, e assim mesmo definindo tais princípios ao sabor dos mitos espalhados e implantados por algoritmos nada religiosos, nada dignos, muito menos abençoados, com fulcro em um só foco: a conquista da mente e do coração para propósitos eleitorais e de cancelamento da liberdade – ainda que dizendo-se arauto da liberdade. Pense.

Já é possível conversar em família sobre assuntos vários, depois de um longo tempo em que um ponto era vírgula para o debate político beligerante. Já consigo fazer isso. Mas vejo também que continua impossível estabelecer um diálogo aberto, com opiniões diferentes se enfrentando com sinceridade e honestidade, para o fim de um convencimento intelectual de parte a parte, ou de uma parte apenas. Um instante de paz e amor que comporta vida, em vez de morte das relações pessoais.

Os que estão imbuídos de razão total a respeito de tudo, vendo conspiração por todos os lados e falsidade de intenções e atos mesmo naqueles que conhece de berço e confiança familiar, muitas vezes agora se calam, o que não quer dizer que se quedam aos argumentos de outra razão divergente ou da realidade evidente. Para eles, prevalece a realidade aparente e a razão própria inabalavelmente. Para eles mais vale o que recebem em grupos e bolhas do que o amplo julgamento dos jogos de realidade virtual.

E quem garante que estamos certos? Quem prova que estão errados? Não há argumento ou fato que substitua o discurso, o meme, a lactação, a narrativa, a mentira clara e bruta, porque no íntimo, no fundo, no cerne do ser, no âmago, está plantada a semente do descrédito a tudo que não é a fé, a crença, a convicção da notícia que transforma fantasia em informação. Não há forma de que algum ente patriota mude de razão por obra da palavra de Deus, que seja, como não há forma de convencimento que nos motive a acompanhar seu raciocínio.

É o espírito destes tempos. Não se convencem do mundo, nem que a Terra é redonda; ao mesmo tempo, não conseguem convencer ninguém que não comungue de seus ideais formatados em redes sociais, de que estão certos e sábios, visto que conseguem sustentar o que pregam e o que desenham como história compartilhada como verdade indestrutível. Como propagadores da boa nova direita ao extremo, não querem nem saber se o mundo comporta diferenças. Só aceitam as diferenças que os igualam.

O 8 de janeiro é o dia de lamentar o Brasil sem sentido, a vida do avesso, em que Jesus é um falível humano, e os humanos direitistas são os eleitos infalíveis. É neste mundo que padre Júlio Lancelloti se torna vilão, e quem lhe aponta o dedo torna-se herói porque demoniza a assistência, o acolhimento, a bondade, o gesto e a ação de bela humanidade, como o filho de Deus pregava. O 8 de janeiro é o marco final de uma curva no espaço, o início de uma reta em forma de descompasso humano. Uma era sem beira.

Quem decidirá o futuro que estamos gestando? Qual será o resultado de nossas falhas na nova modernidade? Aonde vamos parar? Nem podemos apreciar a paisagem. Mal conseguimos enxergar o horizonte próximo e as flores que colhemos. A vida anda mais rápido que nossos pés. Os terroristas nos acusam de terroristas, mas quem deve à República senão os seus dilapidadores, e quem precisa pagar por seus pecados senão os próprios pecadores? Que cumpram suas penas reais, sem tergiversação, ou vão os outros para os quintos dos infernos, sem consideração.

Não deixemos em paz a razão. Nossa maior ameaça não está na IA, a Inteligência Artificial das máquinas e internet, e sim na IAH, a Inteligência Artificial Humana. Um coração corrompido é berço de uma bomba viva.

* Texto publicado pelo Diário de Goiás

Vassil Oliveira
Jornalista. Escritor. Consultor político e de comunicação. Foi diretor de Redação na Tribuna do Planalto, editor de política em O Popular, apresentador e comentarista na Rádio Sagres 730 e presidente da agência Brasil Central (ABC), do governo de Goiás. Comandou a Comunicação Pública de Goiânia (GO) e de Campo Grande (MS).
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