A propósito

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Procura-se um propósito. Não qualquer propósito. Um que faça mais do que ser um ponto no horizonte. Que carregue o peito com muito combustível, suficiente pra preencher o vazio no primeiro movimento da bomba e no segundo, quando ainda cabem mais uns litros. Um propósito para longa distância: a vida toda. Até ali vou sozinho. Estou indo. Me empurrando. Eu ando. Ando mais sentindo do que caminhando.

Nos jardins à minha volta há estâncias maravilhosas. Eu poderia parar um instante, me servir dos seus instantes, seguir em frente. Não tenho ânimo. Falta-me razão para tanto. Onde colocar meu cansaço para poder curtir os instantes? Quando adormecer sem perder a realidade de vista e me esquecer completamente? Acordo sempre sem ter dormido tanto. Um acordar de sonolência febril, indefinida. Se eu dormir profundo, perco este aperto nos olhos. E não é isto que me mantém alerta, hoje?

Nasci com essa inconstância no espírito. Nasci para viver de utopias. E as tive, por certo, na pureza de um coração sonhador. Um estado de alma livre, imperador, e ao mesmo tempo irrompedor. Uma saga de amor, apesar. Apesar de todos. Apesar de mim. Porque nunca esperei da vida senão sua inteira e irrestrita manifestação. Especialmente o desespero. E era isto, este pormenor da existência, tudo que me bastava: não perder um risco de tudo que é escrito e desenhado.

Quando se perde o propósito, posso dizer, nada se coaduna. Nada. E há um pender nos passos. Como ando no fio acima do abismo e este é meu melhor caminho e minha maior alegria, o esforço é grande. Não será motivo de queda, mas é de distração divina. Temo que Deus se descuide e me deixe caminhar segurando as pontas sozinho. A ausência de todas as coisas contra a minha solidão necessária. A falta de um propósito para manter a fé em equilíbrio constante. A dor coçando.

Um propósito de cada vez, por sobrevivência e por amor às causas. Não quero perder o meu abismo intransponível, nem a minha infinitude. Ter que me sustentar, em vez de viver como sou e só. Não temo o fim. Tenho saudade do começo. A propósito.

*Texto publicado pela Tribuna do Planalto

Vassil Oliveira
Jornalista. Escritor. Consultor político e de comunicação. Foi diretor de Redação na Tribuna do Planalto, editor de política em O Popular, apresentador e comentarista na Rádio Sagres 730 e presidente da agência Brasil Central (ABC), do governo de Goiás. Comandou a Comunicação Pública de Goiânia (GO) e de Campo Grande (MS).
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