Amar sobre todas as coisas

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Ninguém que eu conheça sabe dizer quando começa o amor. Você sabe?

Um colega me contou que sua história com o marido começou assim que bateu os olhos nele. Foi amor à primeira vista. O marido concorda sempre que ela conta isso, mas um dia me confidenciou que não foi bem assim. Foram vários encontros até que ela o notasse no meio de uma turma de balada, e ainda assim depois de muitos copos de cerveja. O beijo foi bom, ele lembra, mas o melhor aconteceu no dia seguinte. A ressaca foi uma lembrança tão gostosa, fala ele mirando as nuvens sobre meus cabelos, que pareceu que já se amavam desde antes de um dia alguém imaginar que um hora iam se encontrar e.

Já ouvi também de amores que demoraram a se estabelecer. Na minha família escuto sempre coisas novas sobre amores antigos. Como o da minha prima que se casou sem conhecer direito o marido, naqueles arranjos de família, e que por sorte ou sei lá o quê do destino viveu feliz que só vendo. Ela não tem dúvida de que ele foi feito pra ela, e vice-versa. Uma tia conta que nem sabia o que era isso, amor, quando foi para o altar, e muito menos que casamento rimava com sexo, e que a tudo isso é que davam o nome de amor. Se soubesse, jura, não teria se casado. Nos primeiros meses, até pensou em desistir. Não desistiu porque não é mulher de ficar no meio do caminho. Depois ficaram juntos mais de 60 anos, juntaram mais de dez filhos e somaram para lá de 30 netos.

Amor pega a gente de surpresa, dizem. Pega como? Não sei. Quando menino, amei tão intensamente que foi difícil amar mais, depois. Só soube que aquele amor era desse tamanho, porém, muito depois, porque então só tinha um oco no peito, uma canseira na lembrança, um desajuste no entendimento, uma coisa que não sabia explicar porque desconfiava inclusive que existia. Quando amei na adolescência é que compreendi o que tinha acontecido antes. Sobre este amor o mais curioso é que a partir daí passei a considerar que este era o maior amor da minha vida, e que seria assim para sempre, e hoje sei que assim foi justamente porque me assustei com o que tinha sentido sem saber a medida e, por susto, aumentava sua intensidade toda vez que o recordava. Até que o tempo se encarregou de mostrar tudo é tudo, nada é nada, se é que me entende.

E quando termina o amor? Não mais que de repente, ou com outro amor? Outra pergunta sem resposta convincente. Porque sei de muitos casos em que os amantes resolveram ir cada um para o seu lado muito depois de terem deixado de se amar. Sabiam o exato momento do fim? Nada. Apenas teorias do tipo acabou quando ela parou de prestar atenção em mim, acabou porque ele deixou de me amar, acabou porque arranjou outra, ou outro – e vale para ambos –, acabou porque tinha que acabar. Era para acabar, acabou. Não há mês, dia, minuto determinado para um amor chegar ao fim. De repente chega ao fim quando se percebe que chegou ao fim e se resolve fazer algo, nem que seja fazer nada, deixar ficar a vida como ela é quando disfarça que há amor.

Mas vivemos sem amor? Taí. Porque tem isso também, de se ouvir de alguém que não está amando ninguém. Conheço uma velha senhora que fala isso com orgulho. Não amo ninguém. Disso não sofro. Mentira. Fui saber da sua vida e estava lá, um amor contrariado do qual nunca se recuperou. Ficou amando e sofrendo? Esqueceu o sentimento? Impossível saber. Fato é que amor estava lá, ou pela ausência, ou pela presença não consumada. Em todo caso, amor fomentando vida. Essa mesma mulher me benzeu um dia por conta de sofrimento com namoro frustrado. Ela tocou minha cabeça, fechou os olhos, falou baixinho coisas que não entendi e por fim sorriu. Veja só. A mulher que garante não ter amado ninguém cura desamor dos outros. É ou não é dessas coisas que só o amor explica?

Definitivamente não sei quando começa o amor. Muito menos quando termina, se é que termina. E pode ser que nem amor é o que parece, embora seja amor tudo que se denomina, de toda forma. Quer saber? O amor que se vire; eu quero é viver. E você?

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