Caiado, Bolsonaro e a intransigência bolsonarista nas eleições de 2024 e 2026

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Pela reação nas redes sociais, o governador Ronaldo Caiado (União Brasil) surpreendeu muita gente ao fazer referências elogiosas ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, recém-indicado pelo presidente Lula para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Inteligente, capacitado, estes foram alguns dos elogios.

No PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, a reação de um deputado foi dura: como alguém que acena com filiação ao partido para ser candidato a presidente da República com apoio do bolsonarismo se arvora em defender o inimigo comunista? Assim não dá. Neste momento, Dino é o principal alvo de Bolsonaro e aliados. Significa que Caiado contrariou muito a turma.

Quem conhece Caiado ou acompanha mesmo de longe sua vida política, porém, não estranhou nem as vírgulas da declaração. O governador nunca negou ser de direita e jamais contemporizou com o PT e outras legendas da esquerda. No entanto, sempre se dispôs ao diálogo e ao debate, e frequentemente trata as relações de poder como parte da liturgia institucional.

Em outras palavras, Caiado não tem por formação, hábito ou estratégia radicalizar na forma. Ele paga uma boiada para não sair de brigas relativas ao conteúdo. Assim o fez e faz desde os tempos de União Democrática Ruralista (UDR), passando pela Câmara dos Deputados, Senado e, agora, o governo. Reconhecer méritos do adversário não é sinal de fraqueza, mas de caráter e justiça. Este é Caiado.

Uma virtude, se considerarmos que na política o radicalismo é um caminho, mas nunca o mais fácil e democrático. Convém muitas vezes de ser via de oportunidade para se ganhar eleições; para governar, por outro lado, todos já vimos: é um campo pavimentado em direção ao fascismo e ao totalitarismo. E basta olhar para o Caiado governador para se ver claramente a via que ele escolheu. Em vez de guerra, o governador Ronaldo Caiado mostra-se cada vez mais um diplomata da pacificação e do consenso. Isso para se dizer pouco.

A explicação de Caiado na mesma entrevista em que elogiou Dino dá o tom de seu jeito de ser e fazer política: “Você pode não concordar com as posições, uma ou outra, dele (…), mas não pode desmerecer a capacidade (das pessoas).” Mostra ainda que ele não vai mudar isso mesmo diante da possibilidade de ver tal comportamento criar incômodos ou problemas entre aqueles que se apresentam como direita legítima mas primam pelo radicalismo. Se não pelas razões citadas, por outra ainda: ninguém sabe melhor do que ele entre bolsonaristas e similares o que é ser de direita.

O sonho de ser candidato a presidente é algo que Caiado em nenhum momento escondeu ou deixou de perseguir. Ele joga limpo, como também gosta de enfatizar. Joga olho no olho, não é de atirar pelas costas. Se o PL entender que este é um diferencial positivo, ótimo. O PL terá, caso ele se filie e seja lançado candidato, um nome maior que o radicalismo de direita. Se entender, porém, que isso é um defeito, Caiado não terá nenhuma chance na legenda. Terá que nuançar acolhida em outra freguesia.

Mas e o eleitor brasileiro, está disposto a um novo radical de direita, ou em sua maioria prefere e buscará um nome de direita com um pé no centro? Um outro Bolsonaro, ou um Bolsonaro bem menos Bolsonaro na teoria e na prática política? Caiado faz bem em acenar para o bolsonarismo sem ceder ao extremo do que esse veio eleitoral hoje representa? Respostas nada fáceis, que virão apenas, provavelmente, no ano da eleição. Uma coisa que podemos dizer e pesquisas indicam é que no extremo não há votos suficientes para se eleger ninguém. E coloque-se aí Bolsonaro como exceção, o que particularmente entendo como menos razoável, ou como um líder cada vez mais desidratado.

O bolsonarismo tem decisões a tomar e problemas internos a resolver, e não só em relação a Caiado. Caiado também terá de medir as consequências de seus atos e calibrar os passos para se viabilizar como presidenciável. Há tempo para ambos resolverem os desencontros. No entanto, é possível calcular que para Caiado ser candidato do bolsonarismo, o bolsonarismo terá de mudar, não ele. Ele é o que é, e reafirma isso o tempo todo. A declaração sobre Dino conta como mais um exemplo, e só.

Se o bolsonarismo não mudar, no sentido de se “desradicalizar” aqui e ali, Caiado tomará outra direção. E aí o que pode acontecer com ele candidato a presidente é não ter fôlego para crescer ou roubar o protagonismo do eleitor de direita que complementa a conta do bolsonarismo nas urnas. Um perde-perde-ganha (PT e esquerda). Ou, quem sabe um ganha-perde-ganha. Ganha Caiado, perde o bolsonarismo mas, com a direita dividida, ganha o PT, de novo. A conta está aberta. A especulação aqui é um ponto sem nó, para ajudar no entendimento geral do quadro da reeleição ou sucessão de Lula.

O incrível de tudo é ver como o bolsonarismo está virando uma dor de cabeça para políticos que nunca foram e não são radicais mas precisam manter o personagem, por exigência de Bolsonaro e de bolsonaristas mais realistas que o rei. Candidatos a prefeito, como vão formar alianças amplas com partidos ou lideranças que não topam assumir o discurso da radicalização? Como vão manter a “coerência” ao bolsonarismo sem contrariar o público que alimentam com as premissas do agrado a Bolsonaro?

Voltamos a Caiado. O governador não abraçou todas as pautas do bolsonarismo. Não vociferou contra a ciência, eis uma pauta de ordem renhida que enfrentou quando Bolsonaro ainda era presidente. E não partiu para a demonização de adversários como modus operandi. Ele ficou na dele. Mesmo assim, apoiou a eleição e a tentativa de reeleição do ex-presidente. E tem como suas algumas pautas de evidente teor bolsonarista. Uma delas está no lema de seu governo em Goiás: ou o bandidaço muda de “profissão”, ou muda de estado. Sua polícia não brinca: bandido bom é… enfim.

Se Caiado, com toda essa lealdade, não tem como recíproca o amor dos bolsonaristas, imaginem candidatos a prefeito menos expressivos. Ao menor sinal, terão contra si a ira dos próprios aliados, isso é certo. E terão discurso e a autoridade que Caiado tem para reagir e cobrar recíproca? Terão habilidade para segurar a sua candidatura quando o vento ficar mais forte? Não é fácil juntar discurso e prática na mesma frase em qualquer tempo na política. Hoje em dia isso está mais difícil ainda. E pode ficar impossível para aqueles que têm pés de barro, estofo de plástico e astúcia de onça de pelúcia.

Vassil Oliveira
Jornalista. Escritor. Consultor político e de comunicação. Foi diretor de Redação na Tribuna do Planalto, editor de política em O Popular, apresentador e comentarista na Rádio Sagres 730 e presidente da agência Brasil Central (ABC), do governo de Goiás. Comandou a Comunicação Pública de Goiânia (GO) e de Campo Grande (MS).
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