Cansado

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Estou cansado das coisas que nem sei. E mais cansado pelo que nem consigo imaginar. Estou cansado pelo que me falta, e para com o que estou em falta. O cansaço que me cansa mais é o de tudo quanto há, com seus sonhos, seus desejos, suas desilusões inocentes como a do amor definitivo e infalível. Ah, que coisa boa imaginar que o mundo acabará se me faltar aquele beijo, e ver que não acaba, só o que tem fim é aquele beijo e nada mais.

Minha vida são as pequenas coisas. As grandes me cansam porque pesam como a saudade da infância, embora com a infância perdida eu me entenda: fecho os olhos e me transporto para a rua dos meus amigos que hoje só me importa rever mesmo naquele tempo. As grandes penas do universo não me levam a lugar algum. Elas me matam de tédio, de desencontro, de falta de imaginação e por trôpega criatividade.

Eu sei que não há saída para a vida pesada e enfadada. E que sou eterno. Está claro pra mim: nunca vou me ausentar. Estou cansado porque cabe em mim as histórias de uma biblioteca que não me contém. Estou cansado e sem estante. Olhem pra mim. Estou longe do fim desde quando começou o Universo. Foram poucos passos, pouca conquista desta alma consumida pelos poros. Minha pele já foi a luz do sol. Meu coração já foi a luz da lua. A luz que resta é a do interruptor.

Não tenho vontade alguma de ir embora. Cansar-me mais na direção do abismo? A distância até a base não é o fim, é o baque, o estrondo, isso que bate no meu peito. Escrevo para me acalmar. Para respirar. Enquanto isso, me canso do que me encanta: meu senso de direção. Minha sensibilidade me abastece de mim, me enche de oração por meus milagres. Meus milagres são as horas que passam sem espantar quem me olha espantado diante de mim.

Estou cansado. Estou compassado. Tenho um horizonte que me espera e nunca tem (meu) fim.

*Texto publicado pelTribuna do Planalto

Vassil Oliveira
Jornalista. Escritor. Consultor político e de comunicação. Foi diretor de Redação na Tribuna do Planalto, editor de política em O Popular, apresentador e comentarista na Rádio Sagres 730 e presidente da agência Brasil Central (ABC), do governo de Goiás. Comandou a Comunicação Pública de Goiânia (GO) e de Campo Grande (MS).
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