Detesto política

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A questão é recorrente. Trabalhar com política conhecendo tão bem os dilemas, meandros e decepções que a política respira. Por quê? Não pode ser apenas vocação. Posso estar cumprindo pena de outras eras. “Voltarás ao mundo dos vivos, porém não terás sossego e muito menos razão.” Pode ser isso, um designo divino. Uma sentença.

Em vários momentos, me questionei: e por que diabos então não se candidata? Mas é uma pergunta reflexiva. Sempre me perguntam isso e aí eu me pergunto também. Nunca me candidatei, porém nunca tive vontade. Desse mal não padecerei, reflito aqui com meus pulmões. O problema nem é ser candidato. É ter que fazer o que um candidato faz para ser eleito. Falta-me tão elevada disposição.

Falar mal da política e dos políticos é um esporte salutar. O analista fala, o assessor fala, o político fala, a moça da cantina fala, aquele casal na esquina com certeza está falando agora, repara na expressão dos olhos, esbugalhados, os corpos investidos um contra o outro, o braço levantado. Certeza. Estão discutindo quem é pior, Bolsonaro ou Lula. E são casados, tô vendo alianças. E estrelinhas.

Nada funciona sem política. Alguma dúvida? Relação amorosa. Só com os dispositivos da boa política a coisa funciona. Casamento. Impossível sem jogo de cintura. Trabalho. Um sapo engolido aqui, uma vingançazinha ali, grito pra chamar a atenção, puxa-saquismo como estratégia de sucesso.

Minha mãe é política. Cutuca os filhos, agrada os netos, põe meu pai pra ir oito vezes no mercado pra mostrar quem manda. E meu pai? Esconde o litro de cachaça entre os livros, pra não criar guerra nem nada. Vive na paz de uma e outras doses. Feliz da vida.

Me irrito bastante com a política. Com o fato de conseguir muitas vezes ler nas entrelinhas, mas definitivamente não conseguir fazer. Já tentou pedir voto? Admiro quem faz isso com prazer. Eu sinto vergonha, fico desassossegado, olho para os lados. Pensa num peixe fora d’água. Sou eu pedindo voto.

Mais uma razão pra não ser candidato. E mais outra pra ver como é dura a vida de candidato, embora, neste caso, podemos ver de forma diferente: eu não gosto, mas quem tá lá pedindo voto tá se divertindo e, portanto, não é digno de dó. Sua vida talvez seja mais feliz que a minha.

Aliás, faço esses raciocínios tentando me convencer contra e a favor da política o tempo todo. Se estou de bem com a política, meu cérebro automaticamente se põe contra; se estou triste ou muito bravo, as cerebrações são de defesa incontinente. Vou e volto o tempo que estou acordado. Por isso, durmo pouco.

A vontade de largar tudo é política em guerra no meu coração. No fundo, no fundo gosto de todo o combo que acompanha política. O bom da política é a perversidade, diz um amigo, com graça. Deve ser isso. Eu sou bom, mas também sou bom em não ser, quando preciso. Igual todo mundo. Só que escrevo. Só que verbalizo. E isso me salva. E isso que não me deixa largar tudo e ir morar numa caverna.

Política é hipocrisia, contradição, descaramento, armadilha, mau-caratismo. Nosso achar quem somos, e nosso ser o que somos. O lado ‘a’, o lado ‘b’ e os falam os desguarnecidos da moral católica, dos valores republicanos e da fé numa democracia que sempre se rebela e se combate sem fim. Os jogos de guerra e os assassinatos de reputações e espíritos pudicos são parte de algo maior, e efeito de almas menores do que acreditamos carregar.

Política tem defeito nenhum se os humanos são perfeitos. Agora pense. Você, perfeito? Neste labirinto que se faz a vida e a política. Que prefiro escrever e estar colado nos acontecimentos e suas derivações para ver com a satisfação de leitor e telespectador do que ficar na amargura de saber que não é sadio, mas não ter coragem de beber de fonte deveras prodigiosa de iluminação para o corpo.

Como não beber refrigerante para viver mais. Ou cerveja. Ou a cachaça do meu pai. Política é gozo do fígado e êxtase do coração. Se me virem falando mal de política e dos políticos por aí, não se preocupem. É a véspera. E seu pegar qualquer um no mesmo estado, saiba que na verdade é na prática o único sentimento que terei é o da inveja. Invejinha gostosa de uma boa política jorrando pra todo lado.

*Texto publicado pela Tribuna do Planalto

Vassil Oliveira
Jornalista. Escritor. Consultor político e de comunicação. Foi diretor de Redação na Tribuna do Planalto, editor de política em O Popular, apresentador e comentarista na Rádio Sagres 730 e presidente da agência Brasil Central (ABC), do governo de Goiás. Comandou a Comunicação Pública de Goiânia (GO) e de Campo Grande (MS).
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