Faz tempo, viu 

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O tempo está passando, o tempo está passando – diz o pai, a mãe, o filho, a vó, a tia, todos com ar resoluto de impaciente advertência: ‘Quem avisa, amigo é! Olha a realidade. Vê lá!’

Certo. O tempo está passando. Passa, de qualquer jeito. E quem disse que isso é ruim, apenas? Pior se não passasse, porque aí tudo seria uma eternidade. Passar seria fato, não seria poesia.

Não tenho medo do tempo. O tempo é a morte andando junto com a gente – e a vida, sempre a vida. Assim vejo – e sinto. A morte vai e vem diante dos olhos da gente como se nada mais tivesse que fazer a não ser posar de fantasma.

Ali, o tempo passando, e ela parada, só esperando… Não me comove. Dizer que estou perdendo tempo o tempo inteiro, que devia isso, devia aquilo, não me perturba. Independente dos minutos, os ponteiros existem.

Meus dias me comovem, me irritam, me tiram a calma e me acalmam com o que tiram de tempo para encher a paciência principalmente com banalidades. Meus dias, com o que carregam de fim e de começo, de conto e de desconto.

E o tempo passando… Teria mais sentido o tempo se passasse também para trás. Se pudéssemos ir lá na juventude, visitar o tempo que deixamos para trás não porque queríamos ir para frente, mas porque o que vinha era inevitável.

Não se trata de viver no tempo das lembranças, como se só lá o tempo fosse bom. É poder ir lá, tomar aquele café que a tia Divina fazia enquanto a gente se esquentava no rabo do fogão, sentir o cheiro de querosene na lamparina, ou de frango quase pronto, e voltar.

“Oi, tia, como vai, eu estava com saudades, vim aqui mas já tô indo, que bom saber que a senhora está sempre pronta pra me receber, isso é fundamental lá onde vivo, no presente, sabe, e agora que falamos um tiquinho, estou pronto para mais um encontro com aquele outro tempo que não sai do pé da gente, sabe, o futuro.”

Eu diria isso a ela. Sem dúvida que diria. E voltaria para o presente, que é o tempo anterior, não é nem um tempo absoluto por si só. Anterior ao que chamamos futuro, mas que na verdade só seria, porque nunca é, já era.

O tempo talvez seja isso: nem futuro, nem passado, nem presente. Quem sabe é acima de tudo o que pensamos, imaginamos, não fazemos ideia. Assim: que tempo é o tempo em família? Que tempo é este que nos envolve de emoção e que irrompe sem razão?

Quando meu povo de casa diz ‘o tempo tá passando’ está dizendo é ‘oi, to aqui, todo o tempo’. Uma forma de quem nos ama nos dizer que esse amor é eterno. E é, em qualquer circunstância – e tempo.

Às vezes fico acordado até muito tarde. Perco a noção do tempo, e perco a hora. Não é porque não tenho sono. É porque o dia não se esgotou em mim. Muita coisa não termina em mim – não se esgota, não vem até aqui. Estou sempre começando, bem mais do que recomeçando.

Quem pensa que não tenho tempo pra mim não percebe o tempo que tenho. O tempo que tenho é o que tenho e o que não tenho, porque, em verdade, é o tempo que me tem mesmo quando não tem tempo para mim.

O tempo passa, sim. Não há um segundo que não passe sem mim. Ele que passe. Nem morto vivo sem mim. Viu, tia? Viu, mãe? Viu?

Publicado primeiramente em Sagres Online.

Vassil Oliveira
Jornalista. Escritor. Consultor político e de comunicação. Foi diretor de Redação na Tribuna do Planalto, editor de política em O Popular, apresentador e comentarista na Rádio Sagres 730 e presidente da agência Brasil Central (ABC), do governo de Goiás. Comandou a Comunicação Pública de Goiânia (GO) e de Campo Grande (MS).
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