Goiânia, te amo e não te deixo jamais

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Nos meus primeiros anos morando aqui em Goiânia, meu lugar preferido era o Centro. As livrarias ficavam lá. Os sebos ainda estão lá. Os conhecidos do interior andavam por lá. Era pegar um ônibus e ir pra lá. O resto do dia a gente inventava.

O Centro não é mais o centro. O Centro perdeu seu lugar de fala e charme. Quem diz hoje em dia “estou indo ao Centro”? Ninguém. As pessoas vão ao shopping, aos parques, ali no Serra Dourada, lá no Oscar Niemeyer patinar, mas ao Centro não vão. Ou vão quando não tem jeito, é questão de vida ou morte.

Do Centro, resta saudade para quem viveu seus anos de brilho, ou não resta nada, para os novos que mal conhecem os encantos de um mundo à parte. Não falo da art déco. Falo da Rua 8 com a garapa e o pastel. Da Scarolla Pizzaria. Das ruas estreitas e tortas. Sabia que o melhor café expresso era servido ali na galeria do Cine Ouro? Cremoso, gostoso, um sonho. Eu sonhava.

O meu Centro é inesquecível. Impossível não lembrar dos amigos com quem eu, no meio do dia, entrava em uns botecos lá na rua 7, percorria corredores estreitos, indo parar em uma mesa cheia de cachaça e cerveja. Como eu bebia… Não bebo mais, só um pouquinho. O fígado não deixa, esse chatão da meia idade pra frente. Vou te falar.

Já morei em outras cidades, estados, já tive oportunidade de ir além. Não dá. Por fim, desenvolvi o gosto de vez em quando sair daqui só pra poder voltar. Voltar pra Goiânia é puro sorriso. Volto, pego o carro e faço uma coisa que me deixa dos mais felizes da vida: andar a esmo, só dirigindo, me perdendo e me achando nas ruelas do Setor Sul, do Jardim Planalto, na imensidão que virou a região noroeste.

Tem gente que não gosta dos queijinhos. As rotatórias, uai. Eu gosto. Quer coisa mais agradável do que sair ali pelo Novo Mundo, em direção à minha querida Vianópolis, contornando os queijinhos que o Nion Albernaz colocou pra gente não ter que enfrentar semáforo? Eu acho bom. Fico rindo quando ouço alguém reclamando. Me divirto com as curvas da minha cidade.

E me orgulho também. Me orgulho de tanta coisa. Das varetas nos viadutos, sacada de Iris Rezende. Elas criaram uma referência, uma cara para nossa Goiânia. A TV mostrou uma cidade e nela tem varetas, então é daqui que estamos falando. Me orgulho da lenda do manto de Maria como base para a construção da cidade, saindo da Praça Cívica, indo pela Araguaia e Tocantins, até a Paranaíba, lá embaixo. Um milagre. Um mimo divino para nossa identidade.

Mas o que ouço constantemente como uma característica marcante de Goiânia é o seu povo. E fico pensando. Somos um povo vindo de tanta parte. Gente que veio do Sul, do Norte, gente que não para de chegar, todos misturados aos que aqui nasceram e gerando novos filhos desta terra. Viemos tão diferentes e nos tornamos tão goianienses que parece que integramos a mesma família. Isso que as pessoas notam na gente e é por isso que se apaixonam. Cá entre nós: somos mesmo apaixonantes – e apaixonados pela vida e nossa cidade.

Digo que há mais que essas virtudes e belezas em Goiânia. Há uma alma curtida em sol e cerrado que nos dão gosto e satisfação de jabuticaba. Aquele prazer da boa convivência, da sadia urgência de falar alto, rir alto e mais alto ainda celebrar cada dia e cada instante. Não somos todos iguais. Somos misturados com pequi e pamonha, aquele caldo que faz toda diferença e que só as mães, as tias e avós sabem fazer. As que já estavam aqui e as que chegaram e se sentiram em casa logo de cara.

Eu não sei viver sem Goiânia. Até parece que principalmente eu é que estou completando 90 anos, tão na raiz dessa cidade estou atarracado. Sou uma semente, um tempero, uma réstia de carinho que deixa o Espírito Santo sossegado protegendo a todos. Sou um personagem, uma vírgula tal e qual as vielas que às vezes irritam, quando nos esquecemos delas, mas que nos encantam toda vez que lembramos de quão bela é a vida aqui. Goiânia: te amo e não te deixo jamais. Nem que a vaca tussa ou o Meia Ponte vire Araguaia.

* Texto publicado pelo Diário de Goiás

Vassil Oliveira
Jornalista. Escritor. Consultor político e de comunicação. Foi diretor de Redação na Tribuna do Planalto, editor de política em O Popular, apresentador e comentarista na Rádio Sagres 730 e presidente da agência Brasil Central (ABC), do governo de Goiás. Comandou a Comunicação Pública de Goiânia (GO) e de Campo Grande (MS).
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