Hoje o sol deixou saudade

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Hoje tem chuva? Tem, sim senhor.

O sol que banha Goiânia de suor não acordou ainda, e já quase vai embrulhada em um leve friozinho a manhã da cidade, que parece quieta, jururu, mas está mesmo é curtindo o tempo. Isso eu vejo no rosto alegre do motorista do Uber. “Hoje tá bom, né”, ele diz, é, mas não precisa. Mais é sorriso. Deixei meu sol em casa, e é evidente que ele, também. Todo goianiense tem o seu, e vejo que não carece usar por ora.

A chuva que vem, não vem, pinga, não pinga, deixa tudo mais cinza e com aquela expectativa boa de curral na madrugada, quando a água que chapisca o cabelo pode ser geada, pode ser só o sereno chegando e já indo embora. O silêncio nas ruas só é quebrado pelo deslizar dos pneus. Fecho os olhos e me vejo nos trieiros com uma capanga e uma despreocupação que, se eu atentasse, me faria voar, de tão cheia de nada pra fazer.

A melancolia de Goiânia é a primeira a chegar e a última a sair da gente em dias assim, infinitos na inspiração. Se eu disser que não pensei em uma pamonha de sal molinha, amassada com caldo de frango e um creme que veio lá dos atributos da dona Cotinha, todos vão saber que minto. E com pamonha não se brinca. Nessas horas, já estive em missão arteira, cortando milho no pasto e levando pra espalhar pela cozinha. Aí era sentar no banquinho e catar, catar e catar. Nessas horas, estou vivendo as lembranças e lambendo as promessas de repetir tudo logo, logo. Deus ajude!

Não estranhe minha viagem interior. Interior mesmo, lá pelo cerradão, acolá, pelo coração. Goiano é feito de memória e saudade. Não temos futuro senão levando muito passado na bagagem. Não dá pra separar a gente da gente toda, da gente que vem da semente, brota sem pressa e viceja feito alface na horta. Quando o dia amanhece cheio, sopro pelo corpo, o sol resguardado pra mais tarde, quem sabe outro dia, não tem nada que nos tire os olhos da imensidão. O olhar sobe morro, desce brotas, bebe água de minas espalhadas, minas que explodem em vidas, e o que morre sem solução é o resto do mundo.

Não chamem de solidão o que é gabiroba. Não me chamem pelo nome agora. Apenas respiremos a cidade, curtindo serenos a pequena ausência do sol na pele. Daqui a pouco, a gente se encontra, toma um café e fala de tudo um pouco. Com essa disposição, somos capazes de mudar o mundo. Por isso, é melhor deixar quieto essa veleidade casual passar. Não é hora de competir com Deus. A hora é de sentir-se Ele, mas não ter que ser quem Ele é. Basta não ser; ser como nos dias simples. Porque o sol não vai; ele vem. O sol reza a ladainha sempre é no tempo que se espelha.

*Texto publicado pelo Diário de Goiás.

Vassil Oliveira
Jornalista. Escritor. Consultor político e de comunicação. Foi diretor de Redação na Tribuna do Planalto, editor de política em O Popular, apresentador e comentarista na Rádio Sagres 730 e presidente da agência Brasil Central (ABC), do governo de Goiás. Comandou a Comunicação Pública de Goiânia (GO) e de Campo Grande (MS).
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