Infinita magia

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Já fui de um tempo em que o tempo não passava. Na infância, o tempo teima, não passa. E não tem tanta importância assim. A não ser quando vamos dormir e no dia seguinte tem piquenique marcado no Rio dos Bois. A noite não passa. As horas não andam. Mas a gente foi, tá lá no rio, pulando na água, deitado na areinha, atracado na boia de pneu de caminhão. E quando chega a hora e a gente chega lá, o que queremos: que o tempo não passe. Que o tempo dure para sempre.

Crescer e encarar o tempo de outra forma. O tempo que foge. O tempo que corre. O tempo que nos escapa e que não para nem para respirar. E quanto mais respiramos, mais o tempo nos invade; mais o tempo entra, percorre as veias, pega o fígado de jeito, deixa exausto o pulmão e consome a carne moída pelos dias, que andam sempre sem tempo. O tempo traz uma sabedoria que nunca conquistamos, a não ser na ilusão de que dominamos a vida. A vida quem domina é o tempo que nos foge e o pouco tempo que nos resta. E quem pensa que domina a morte, não pensa: da morte, não dominamos nem o seu tempo.

No Natal, o tempo é festivo. No Ano Novo, o tempo é esperançoso. São tempos autossuficientes, no coração das pessoas. Na prática, o tempo é o mesmo. Não é de festa, não é suficiente. Mas pra gente este tempo como a gente concebe é o tempo que temos pra sonhar. Vai passar o tempo fora do tempo. Como vai passar o sonho, porque no tempo ausente de realidade. Não se entristeça: um é rascunho do outro, pra gente. Sem o outro que nos inspira, em tempo algum haveria o tempo mágico infinito de dentro da gente, que nos faz viver o tempo todo com o sentimento que faz a gente.

O tempo que não temos é cheio de notícias duras sobre quem a gente é de verdade. Falsos, cruéis, odiosos, imperfeitos. O tempo que temos dentro, fora desse tempo, nos mostra o outro lado do universo, quando temos tempo suficiente para sermos apenas bons. Não sei onde Deus vive. Ou onde ele vive mais. Em um desses tempos, pouco tempo tenho para ver Deus; no outro, encontro Deus o tempo todo. Natal e Ano Novo existem o ano inteiro. São um tempo infinito. Só perdem para outro tempo porque nos perdemos lá também. Portanto, feliz Natal e farto Ano Novo. Que o tempo que nos une agora, neste parágrafo, seja tão somente a história de todos os tempos.

* Texto publicado pela Tribuna do Planalto.

Vassil Oliveira
Jornalista. Escritor. Consultor político e de comunicação. Foi diretor de Redação na Tribuna do Planalto, editor de política em O Popular, apresentador e comentarista na Rádio Sagres 730 e presidente da agência Brasil Central (ABC), do governo de Goiás. Comandou a Comunicação Pública de Goiânia (GO) e de Campo Grande (MS).
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