O dia em que um defunto matou o outro

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O episódio narrado a seguir envolve um advogado que brilhou nas tribunas judiciárias goianas ali pela década de 1960. Era temido e respeitado não só pelo seu saber jurídico, como também pela sua coragem e ousadia e, mais ainda, pela força de suas expressões e de seus atos.

Conta-se que não raras vezes, antes de iniciar a sua sustentação oral em defesa do réu, no Tribunal do Júri, retirava da cinta o seu fiel 38 do cano longo e o colocava mansamente em cima da sua mesa, deixando-o exposto na frente dos jurados.

Os nomes aqui usados são fictícios, para preservação da identidade dos verdadeiros personagens. Foi assim…

A notícia já chegou pela metade ao delegado. Uns afirmavam que o peão, tomando as dores de seu chefe, Dr. Serapião, trocara tiros na corrutela com um sujeito abusado, tendo ambos tombado sem vida, o que significava dizer que um defunto matou o outro. Outros diziam que foi o próprio Dr. Serapião, em defesa de seu empregado de fazenda, quem atirou no tal sujeito e, com a intenção de se livrar do crime, pôs o revólver na mão do seu próprio peão, já morto. O certo é que Dr. Serapião, um temido advogado acostumado a ganhar todas as causas, estava em apuros naquela oportunidade.

Por conta disso, numa determinada noite, já em horas passadas, Dr. Serapião foi tirar satisfações com João Mineiro, a testemunha que o acusava de ter atirado no matador do seu peão. E levou consigo dois capangas armados e da cara muito feia, que lhe faziam a guarda diuturnamente.

— O doutor tem sastifação de lhe fazer uma visitinha! — disse-lhe um dos jagunços, a mando do advogado, que ficou lá fora.

— A sastifação é toda minha de receber em minha humilde tapera um homem tão importante! — respondeu educadamente o dono da casa, já sentindo um frio na espinha.

— Ele não vem cá dentro não, é pro amigo acompanhar nóis.

— Lá fora não vou não! — respondeu na lata João Mineiro, desconfiado da visita.

— Acho bom o amigo num teimar não. A ordem é pra levar o amigo de qualquer jeito. Tou sendo claro?

Sem opção para escolher e decidir, lá foi João Mineiro, morrendo de medo. Assim que chegou na armadilha, um dos jagunços foi o encarregado do interrogatório. De vez em quando o advogado balançava a cabeça afirmativamente, quando o interrogante queria a confirmação de alguma pergunta ameaçadora.

Muita coisa foi indagada sobre sua vida. Inclusive foi lembrado que ele tinha esposa e quatro filhos pequenos para criar, que aquele seu depoimento prestado ao delegado poderia pôr fim à sua vida e à de sua família, se ele insistisse em acusar o patrão, o Dr. Advogado. De repente, assim sem mais nem menos, ele próprio poderia aparecer com a boca cheia de formiga e ninguém ia saber quem matou. E os meninos também poderiam morrer um a um, devagarinho: hoje desaparece um, amanhã outro, depois de amanhã mais outro, até acabar a raça.

O homem tremeu as bases. Daí por diante prometia negar tudo o que dissera ao delegado. Só aí que Dr. Serapião entrou na conversa. Havia chegado a hora de ler o bê-á-bá da sua cartilha para o homem escutar. Ele, o Dr. Serapião, estaria lá na delegacia, sentado à sua frente, olhando dentro dos seus olhos. E João Mineiro deveria confirmar tudo o que dissera no interrogatório anterior. Não podia engolir uma só palavra. Daí por diante é que estava o segredo da conversa com o delegado. Fizesse a coisa direitinho, como ele estava ensinando, que tudo daria certo no final.

Na Delegacia, tudo corria como de praxe. Após breve espera, chegou o Delegado e iniciou novo interrogatório.

— A testemunha confirma o depoimento anterior prestado aqui na Delegacia? — indagou a autoridade.

— Confirmo sim, senhor — respondeu João Mineiro.

— Então você confirma que foi o Dr. Serapião quem atirou na boca do Salomão e o matou?

— Confirmo sim, senhor.

— Você viu, ou ouviu dizer?

— Vi, com esses zóios aqui, que a terra ai de comer um dia!

— Então foi o Dr. Serapião mesmo?

— Foi.

— Você conhece bem o Dr. Serapião?

— Vi de longe, naquela tarde meio escura, mas eu não engano não, doutor!

— Seria capaz de reconhecê-lo se o visse à sua frente?

— Claro, doutor! Como eu ia confundir?

O Delegado pensou, pensou, acendeu um cigarro, tirou umas duas tragadas bem demoradas e deu uma olhadela no Dr. Serapião, que permanecia ali sentado, sisudo, mantendo a pose. E virou-se novamente para a testemunha:

— Por acaso, o Dr. Serapião está aqui nesta sala?

João Mineiro olhou para a direita, para a esquerda, virou-se para trás, e, não vendo ninguém na sala que não fosse o Delegado, o escrivão e o advogado, Dr. Serapião, acomodou-se novamente na cadeira e respondeu:

— Não tá não, senhor.

— E esse senhor sentado à sua frente, você o conhece?

— Não conheço não, senhor, nunca vi.

O Delegado, indignado, respirava fundo, fitava demoradamente o advogado e a testemunha, como que querendo entender direito o que estava acontecendo, e disse, desanimado:

— Pois é, ele é o Dr. Serapião, você está diante do próprio.

— Não, não pode ser, doutor Delegado!

— Quer dizer que não foi o Dr. Serapião o autor do disparo que matou o outro peão?

— Foi! Quer dizer, parece que não foi não.

— Afinal, foi ou não foi? Seja homem, rapaz!… Sabe que você pode ser preso agora se não disser a verdade?

— Uai, Dr. Delegado, se esse aí é o Dr. Serapião, então não foi ele quem matou não. O que achei que era o Dr. Serapião era muito diferente desse aí.

— Tem certeza do que tá falando?

— Tenho.

Diante desse fato inusitado, o Delegado tratou de encerrar o caso, sugerindo o arquivamento dos autos. Finalizou o relatório do inquérito dizendo: “(…) que não houve crime, pois o que restou comprovado nos autos, após longo esforço da autoridade policial, foi que um defunto matou o outro. E defunto não comete crime”.

* Texto publicado pelo Diário de Goiás

Elson Oliveira
Elson Gonçalves de Oliveira foi professor de Língua Portuguesa, é advogado militante e escritor, com vários livros publicados.
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