O jornalista, o político e o cidadão: quem tem razão

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A essência do jornalista é perguntar. A obrigação do político, do empresário, de quem for, é responder.

A responsabilidade (social, humana) é mútua, assim: na política, com a teoria e prática da transparência sem tergiversação; no Jornalismo, com a teoria e prática de seus mandamentos éticos básicos da investigação, apuração e, quem sabe, a publicação. Em todo o tempo, falam mais alto a honestidade e os interesses do cidadão. Ao cidadão, a recíproca é verdadeira. Caráter é obrigação geral e irrestrita. Princípio e fim constitucionais da alma.

Parece uma receita fácil. Basta o político estar preparado para falar sobre todos os assuntos abordados, ou ser honesto e reconhecer que não tem conhecimento sobre isto ou aqui, e ir atrás de informação para na próxima vez não ser pego no contrapé. Ao jornalista, cabe não mais o preparo profissional, saber o que perguntar. O que vemos muito é um combo: perguntas malfeitas e respostas estabanadas. Perdem os dois.

O que vale para o político, vale em exata mediada a quem quer que seja. O problema nunca é a pergunta. Isso é de lei, é o óbvio, o prato feito, o feijão com arroz. Uma pergunta atravessada, feita com maldade, a pegadinha, uma questão irritante de bem formulada, tem o mesmo peso se a autoridade ou o elemento fustigado mata no peito e chuta com categoria: responde. Mesmo que seja para dizer que não vai comentar naquele momento; que nada dirá de forma alguma por razões variadas; que… e aguente o tranco.

Políticos e outros não percebem, mas acontece bastante de serem questionados de forma agressiva ou enviesada não porque o jornalista tem uma intenção política, empresarial, pessoal qualquer, e sim por falta de informação ou excesso de desinformação da parte desinteressada na verdade ou interessada em omitir, esconder a realidade. As pautas cumpridas em ritmo de furacão, a pressão do fechamento meteórico dos noticiários, o dia-a-dia fora do eixo, uma pedra no meio do caminho, tudo pode contribuir para o desastroso momento em que o gravador é ligado e, de repente, o cérebro é desligado.

Quando a caneta falha, ato contínuo o desatino vibra. Todos erram, todos falham. O infalível, que atire a primeira pedra. Atente: teorias da conspiração só servem como piada pronta. Em termos de diversão, competem com a rede elétrica da fofocaiada. Atente ainda: se o ou a questionado aproveita o momento e surfa, ganha aplausos. Se apela e vai na mesma toada, recebe pedradas e arranhões na imagem. Perde a oportunidade da vida. Fique esperto, porque jornalista que é jornalista tem que cumprir seu código, porém não tem que passar recibo de tapado. Agora, se tudo se dá por desvirtude profissional do questionador e as provas estão à mão, a história é outra: denuncie.

O objetivo do jornalista nunca é vencer queda de braço: é o fato prevalecer sem eira nem beira. Verdade, sempre ela, seja dita e escrita. A bem de todos. Assim: não dá para o questionado esperar do questionador as condições ideais para ser perguntado e poder desenvolver seu raciocínio lindo e maravilhoso. E tem o tempo. O tempo urge e urde, caso se deixar. No jornal, mais ou menos espaço segundo a ênfase editorial; no rádio, mesmo curto levará a própria voz; na TV, mesmo curtíssimo, mostrará voz e imagem; na internet, seja o que Deus quiser.

Nas redes sociais tem outra medida ainda: o da possível viralização de recortes de vídeo e matérias feitas por qualquer um. Com todo respeito, qualquer um mesmo, porque é campo minado sem qualquer respeito às regras e imposições dos ensinamentos do Jornalismo como é ensinado nas boas escolas do ramo. Nem todo mundo hoje que se diz jornalista e trabalha em atividade jornalística é jornalista. Não vão cumprir; vão literalmente cagar regra, com o perdão da palavra. Estão lá para tudo, menos ser jornalistas. Como não são de nada, por que serão de seguir os passos do Jornalismo como ele é, quando visto e reconhecido sem o preconceito dos ignóbeis, a insensatez dos e ignorantes e sem a desonestidade moral e intelectual dos fascistas?

Conhecer como os veículos funcionam e reconhecer que os jornalistas são cidadãos, e compreender que todos, sem exceção – na política, no meio empresarial, na comunidade -, somos filhos de Deus, se não parte de uma engrenagem social necessária, é sabedoria para a vida e para a vivência pública. Quem não está exposto na coletiva, na gestão da imagem, na crise do momento? Apresentada pela imprensa como algoz, com seus produtos, de duas pessoas, uma empresa bem estabelecida de Goiânia viu-se ela própria com a reputação assassinada. Foi crucificada, morta e sepultada. No terceiro dia, entretanto, ressuscitou. Não era culpada de nada, segundo a polícia.

O crime foi outro. O cadáver, também. Entre o primeiro e o segundo, o que a imprensa viu como vidro, era espelho. A imagem clara do erro não intencional, do erro em virtude de seus erros de apuração, de investigação e coisas afins, não salva ninguém, inclusive de processos. Mas erros assim também não condenam uma profissão. São murros na cara de quem não quer discutir temas sensíveis como regulação da internet, pressa como inimiga da profissão, ensino universitário desfocado da realidade, revisão de conceitos e procedimentos, e por aí adentro.

Desse jeito, onde vamos parar? Desse jeito, quem vai nos parar? Estas são as questões mínimas mais atuais aos questionadores. Haja sabedoria. Sabedoria bem além da estratégia de ação calcada em conhecer quem é quem. Sabedoria para conhecer o que está fazendo, para fazer bem feito, sem esquecer a história, as nuances, os fatos e feitos do tempo e do vento. Bem além de o quê, quem, quando, onde, como, por quê. Sabedoria para o fim do mundo não ser o fim. Uma coletiva de imprensa, uma entrevista exclusiva, uma arguição de descobertas em um furo de reportagem, uma fricção de interesses, cada movimento é um encontro de sábias oportunidades, um diálogo aberto entre a gente. Nem tudo está à venda, nobres senhoras e senhores.

Essencialmente falando. Embora o poder e sua perspectiva coloquem preço, nem todos os homens e mulheres da terra são encantados pelas suas benesses ou a magia do dinheiro. Embora o poder da imprensa – da mesma forma poder com virtudes e vícios -, esteja disposto a pagar caro por uma manchete, nem sempre é feita sua vontade. Embora todo cidadão reitere que busca a verdade, nada mais que a verdade, muitos são aqueles que, quando leem, assistem, ouvem, googlam, o que revelam é a verdade que camuflam: o seu lado b, bárbaro desejo de julgar e condenar.

Desde o início, estamos todos do mesmo lado, todos os lados, o tempo todo. Perguntar e responder é da natureza do ser. No fim de tudo, estar é que são elas.

* Texto publicado pelo Diário de Goiás.

Vassil Oliveira
Jornalista. Escritor. Consultor político e de comunicação. Foi diretor de Redação na Tribuna do Planalto, editor de política em O Popular, apresentador e comentarista na Rádio Sagres 730 e presidente da agência Brasil Central (ABC), do governo de Goiás. Comandou a Comunicação Pública de Goiânia (GO) e de Campo Grande (MS).
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