O motorista da ambulância e a assombração em figura de gente

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Em diversas comunidades, especialmente do interior, o termo “Quaresma” ainda guarda estreita ligação com o aparecimento de lobisomem, assombração, mula sem cabeça, cachorro doido… Isso vem da nossa cultura popular, atravessando séculos.

Dizia minha saudosa mãe que na quaresma o capeta fica solto na rua, alvoraçado e fazendo estripulia. E advertia: “Fica na rua até tarde da noite não, que a assombração pode te pegar!”.

Lembrei-me de uma história real, envolvendo um servidor de uma prefeitura das imediações de Goiânia. Foi assim…

Tempo de quaresma!… A ambulância vinha em velocidade, como sempre. Não era a pressa que determinava a correria, imposta pelo motorista, com desculpa de chegar à sua casa mais cedo, mas a força do hábito. Ambulância é assim mesmo, sempre apressada, especialmente por que está em jogo a saúde da população. E saúde tem de ter prioridade, não é mesmo!…

O motorista estava ciente também de que, ao regressar à cidade de origem, outra missão poderia estar à sua espera, fato costumeiro na sua profissão. Ele sabia disso como ninguém, pois estava no ofício há uns bons anos. Acostumou-se tanto a transportar doente agonizante para a capital do Estado que, mesmo quando voltava com o carro vazio, sem perceber os ponteiros já estavam buscando a outra extremidade do marcador.

Nessa oportunidade, a ambulância vinha de uma missão malsucedida. Pelo menos cumprira a obrigação, fato que já tinha virado rotina. Infelizmente, não foi possível salvar a vida da paciente. A mulher que fora levada às pressas para a capital, passando muito mal do estômago e vomitando sem parar, não suportou as dores e faleceu nas mãos dos médicos. O motorista foi designado para buscá-la. Estava exausto, pois naquela oportunidade cumpria a terceira maratona de mais ou menos duzentos quilômetros, ida e volta cada uma.

Na jornada de regresso, viajavam somente ele e a defunta, uma senhora já de idade, que devia ser enterrada como indigente, logo que chegassem ao destino e assim que amanhecesse o dia. E foi aí que aconteceu o que não podia ter acontecido.

Começo de noite ainda. Não se podia dizer que havia silêncio, porque o trepidar dos pneus quebrava a monotonia. Viagem um tanto sonolenta, sem ninguém para conversar, falar mal do governo, contar uma anedota e explodir em risos e descontração.

Ele e a falecida, apenas. Separava-os uma pequena janela de vidro, que abria de dentro para fora, mas que não estava funcionando direito. Se quisesse inspecionar o compartimento onde se encontrava a defunta teria de parar o carro e abrir a porta traseira do camburãozinho.

— Ah, que fome!… – disse o motorista a si mesmo, em voz baixa e amena, como se estivesse pensando em voz alta, por que de fato as lombrigas já começavam a ficar alvoraçadas em sua barriga.

Nesse instante, a tal portinha da defunta meio que se abriu um pouquinho e uma voz feminina, meiga e educada, ecoou lá de dentro:

— Tem um saquinho de biscoito aqui, o senhor quer?

— Divino Padeterno, quê que é isso!… – berrou o motorista no maior estardalhaço, ao ouvir a defunta conversando. Será a defunta mesmo?… Só pode ser.

E o carro rodopiou na pista, indo de uma extremidade à outra, e o motorista, mesmo acostumado a tantas situações adversas, contratempos na estrada e outras coisas mais, levou tempo para controlar o veículo, parando lá adiante, após insuportáveis solavancos.

Assim que conseguiu parar, abriu a porta do carro ligeiro e saiu a pé, correndo o quanto podia, e ficou lá adiante, agachado e escorado em um barranco da estrada, com as pernas bambas e o coração querendo pular do peito. Não enfartou por que tinha o coração forte, jovem e sadio. De resto, permaneceu ali um tempão, matutando e tentando achar coragem para voltar à ambulância.

“Nunca tinha visto, isto é, nunca tinha ouvido defunto falar!… Mas defunto não fala!… Então a velha não morreu?”, questionava ele.

Animou-o a ideia de que a passageira podia não estar morta. Menos mal. Talvez tivesse sido vítima de um desmaio, quem sabe! Nessa crença, resolveu voltar ao veículo e verificar de perto o estado da ex-morta.

Todavia, no que ia chegando de volta para retomar as atividades, a porta traseira do carro foi aberta de repente e apareceu uma figura humana, fato que provocou nele outro choque ainda maior do que o primeiro.

Nessa hora, o homem deu uma derrapada no cascalho e um grito tão feio e estridente que assustava a qualquer um que porventura por ali passasse:

— Minnnha Nossa Senhora!… Meeeu Divino Padeterno!… Quêêê que é isso, gente!…

E saiu catando mamona, escorregando aqui e levantando acolá. E correu lá pra longe. Nesse momento, a pessoa se apresentou:

— Moço, sou eu!… Moço, sou eu!…

— Eu quem, meu Deus do Céu? – indagou ressabiado.

— Uai, a filha da Marcelina, a falecida!

Com isso, o rapaz pôde respirar mais aliviado. Foi chegando devagarzinho, olhos atentos, e indagou ainda cabreiro:

— Uai, o que ocê tá fazendo aí dentro da ambulância?

— Vim fazer companhia pra minha mãe, uai!

— E ocê entrou na ambulância sem minha permissão? Quem deu ordem?

— Achei que o senhor tava sabendo que eu vinha fazer companhia pra ela, ela é minha mãe.

— Como é que eu não vi ocê entrando na ambulância?

— Pois é, tava ajudando a enfermeira a arrumar o corpo da coitadinha, nem imaginei que o senhor não tinha visto eu entrar. O senhor me desculpa!…

— Tudo bem, já passou. O susto foi grande, mas passou. Se eu sofresse do coração, hein, já era!…

— Moço, o senhor falou que tava com fome… Quer um biscoitinho, tá muito gostoso?

— Biscoito? Não, obrigado, perdi a fome.

— Come pelo menos um, o senhor deve de tá com bastante fome!

— Não, moça, obrigado. Nós vamos é embora, que já tá ficando tarde!…

*Texto publicado pelo Diário de Goiás

Elson Oliveira
Elson Gonçalves de Oliveira foi professor de Língua Portuguesa, é advogado militante e escritor, com vários livros publicados.
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