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Vassil Oliveira

Eu não vivo de lembranças, mas tenho um caso de amor incondicional com as minhas. Elas me estimulam, me fortalecem, me conduzem quando estou machucado com os espinhos que entram nos olhos para tentar me cegar. Elas me curam também. A visão do meu avô Zequinha sorrindo, os dentes largos, o olho puxadinho, sentado na banqueta, é uma oração profunda de gratidão a Deus. Uma historia sofrida, um homem calejado daquele, um coração rústico de tanto triscar nos capins e ser açoitado pelos galhos das árvores do cerrado, e ainda assim disposto a um sorriso acolhedor, maior que as serras e montanhas, tão cheio de riachos.

Do avô Bastião me abastece na alma o pudim que ele fazia, e também o sorriso, só que um sorriso diferente, de canto de boca, um dente a mostra, e em pequenos solavancos. Seu cabelo fino, branco, vistoso como um sol não tem igual em qualquer canto da terra. Com minha vó Maria, estava sempre disposto, sempre alerta, com seu modo sistemático de ser. Vó Maria era como o recheio do pudim que ele fazia, uma mulher cheia de cascas, mas cascas doces, inimitáveis, porque ninguém conseguia fazer igual. Ninguém conseguia sequer conceber a delicadeza do sentimento que eles exalavam. Eram perfumados com paixão do interior.

Vó Izídia parecia uma força na natureza. Vamos fazer pamonha, vó? Ele nem respondia, já pegava o facão, ia na roça, cortava o milho, nem pedia ajuda, ajudava quem queria, levava o milho, cortava, tirava as palhas e ia temperar. Ah, o tempero. Pamonha é milho bom e tempero de família. Só sua atitude já servia pra juntar gente ao seu lado, e aí todo mundo se envolvia, virava o dia ou a noite do avesso, até que a gente pudesse comer tudo, umas oito cada, com creme, caldo de frango, algumas com queijo e outras tantas com linguiça que tinha sido feita outro dia, em mutirão. Vó Izídia mesma não comia na hora, gostava de pamonha fria, e comia sem prato, rasgando a palha e enfiando na boca mais boa da existência.

Nos momentos mais difíceis eu me lembro dos meus avós. Eles transformam qualquer choro doído em lembrança boa, em razão de estar onde estou e de ser quem teimo ser. Teimosia que é herança, inclusive, está no DNA da gente da roça, bem da Água Vermelha, beira de córrego, perto do buritizal e nas costas do barranco das cobras. Eu carrego isso sem perceber, como o bacheiro do meu tio nas costas da égua brava que o conduzia com presteza e sem erro nas enchentes e nas secas. E evoco sem saber toda vez que sou ameaçado pela morte dos meus sonhos, pela quebra dos meus pensamentos, pelo incêndio de minha maneira de pegar vara de anzol e fisgar na hora exata que o gesto produz a maior satisfação possível na beira de um rio.

Carrego igual meu pai e minha mãe. Tô sempre lembrando da minha mãe com o Emmanuel no colo, ele fazendo birra pra não tomar o remédio, se contorcendo com sua dádiva de ser especial. Quantas vezes acordei de madrugada e vi minha mãe cochilando mas segurando firme o Emmanuel porque não podia nem deitá-lo, devido ao risco das costelas dele nāo aguentarem o retorcimento do corpo frágil. E ela ali, firmemente dormindo com os braços abertos e cheios de sua velha pele de mãe absoluta, apegada em Nossa Senhora e nos terços tecidos aos montes pelas madrugadas. E meu pai ao seu lado. Meu pai dedicado ao filho adotado e aos outros, de seu sangue, com a mesma intensidade. Nenhuma linha de tudo que meu pai escreveu tem menos eu, Waber, Vanusa ou Emmanuel.

Do meu pai tenho lembranças maravilhosas, e a dos tempos do Emmanuel nāo tem igual. Ele tinha deixado a política, estava decepcionado com muita coisa, com amigos principalmente, e em vez de jogar tudo no vale dos infernos, ele criou beleza. Vieram daí seus causos, contos, romances, novelas, livros de Direito, veio daí este homem espetacular que me inspira a nada fazer de mal com o mal que me fazem. Pelo menos lutar por isso, porque também nāo sou santo, o que, pra mim, ele é. Meu pai escreve para viver, e isso mostra o quanto um homem pode ser maior que a si mesmo. Maior que a alma que tem. Do tamanho que o Pai lhe dá como propósito. Todos temos uma missão, temos um desígnio, tempos um propósito. Pois eu posso dizer que conheci e conheço um homem assim. O que pode ser maior?

Nāo vou sucumbir ao que outros querem me fazer acreditar, eu sei. Mas nāo por mim. Pelas lembranças que me enchem o peito, os olhos. Elas estão agora, neste exato momento, me tirando do chão, do lamaçal onde tentam me jogar, para me fazer levitar. Prefiro caminhar sobre os que tentam me torturar do que voar sobre as suas cabeças. Vou calmo, sem rasante. Vou com minha sinuosidade, sem o couro grosso dos aprendizados. Só com a poesia dos dias. Só com o caldo que sai das minhas dificuldades, como vi naquelas madrugadas em que vô Zequinha me acordava para levar à moenda. Saiba, meu vô, que não sou o bagaço, nem mesmo o suco que escorre com o ranger das madeiras e o resfolegar da rês. Eu sou você. Sou meu pai, minha mãe, meu vô Bastião, minhas avós queridas, e sou meus filhos, sou o fruto do nosso reino. Um reino, acima de tudo, de amor. É amor que sou, e ponto.

(28.3.23, 14h56)

Vassil Oliveira
Jornalista. Escritor. Consultor político e de comunicação. Foi diretor de Redação na Tribuna do Planalto, editor de política em O Popular, apresentador e comentarista na Rádio Sagres 730 e presidente da agência Brasil Central (ABC), do governo de Goiás. Comandou a Comunicação Pública de Goiânia (GO) e de Campo Grande (MS).
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