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O velório do Bonifácio

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Pois é, o Bonifácio morreu. A mídia regional anunciava o fato incansavelmente. Merecido, pois se tratava de pessoa de bem e inspiradora do respeito de todos. Eu também fui ao velório, por que não? Não por curiosidade, isso não. O Bonifácio não me era uma pessoa tão íntima, mas mesmo assim eu gostava dele. Conhecia muitos dos seus feitos em benefício do semelhante. De fato, ele gostava de ajudar os outros. Isso fazia dele uma pessoa bastante popular. Todos o conheciam ali na redondeza.

Confesso que não sou muito adepto de frequentar velórios, mas alguma coisa me empurrava para dar um pulo até lá. Mais propriamente para o último adeus e para cumprimentar e transmitir os pêsames à viúva e aos parentes.

Mas sabe, não foi uma boa. Arrependi de ter ido. Logo na chegada me deparei com coisas assim de causar espanto. Sabe aqueles políticos defunteiros? Aqueles que ficam procurando aqui e ali onde possa ter um velório, a fim de desfilarem as suas “boas intenções”, para impressionar a família do morto e a sociedade? Esses mesmos. A asa do caixão? Ah! São os primeiros a segurar, para soltar só quando chegar ao cemitério. Na sepultura, três punhadinhos de terra, demonstrando gesto de respeito ao falecido e sua família.

Aquilo já me deixou cabreiro. Não concordo com esse tipo de coisa de jeito nenhum. Então resolvi escorar em uma parede, ali no canto, até mesmo para dar tempo ao tempo e digerir aquela situação que me parecia esdrúxula. Porém não me senti à vontade. Havia duas senhoras que conversavam aleatoriamente, contando vantagens de sua família e de seus filhos. E do outro lado, duas outras que jogavam conversa fora displicentemente, uma delas contando as traições de seu marido e xingando tudo e todos pela má sorte de ter casado com um sujeito tão sem-vergonha, ao que a interlocutora, tomando as suas dores, aconselhava: “Vinga dele, sô!… Usa o mesmo remédio!… As más línguas não dizem que chumbo trocado não dói? Acha que não fiz isso com o chifrudo lá de casa?”.

Por tudo isso, resolvi mudar de lugar. Não dava pra continuar ali, pois o pessoal proseava alto, pronunciando palavras ofensivas e de baixo calão, chamando a atenção das pessoas de vem que estavam no recinto.

Melhor local que achei foi lá fora, distante daquelas coisas com as quais não concordo que aconteçam em velório. Velório é lugar de respeito, né não? Até por que, naquela hora as rezadeiras davam início à reza do terço, momento em que era exigido um respeitoso silêncio. Quem não quer rezar que permaneça calado, ora!… Ou vá lá pra fora, lá longe, né!…

Mas não foi nada não. Antes de me concentrar naquela bonita manifestação de fé, ouço um pequeno barulho e cochichos às minhas costas. Olhei depressa e me deparei com uma moitinha de gente abrindo uma garrafa de pinga e bebendo no gargalo, todos agachadinhos, procurando esconder-se ao máximo. Mas riam o que dava. Baixinho, é claro. Risadinhas de velório mesmo. Achei um despropósito. Cachaça no velório e na hora do terço? Ah nem!… Um desrespeito ao falecido, à sua família enlutada e à fé das pessoas ali presentes.

Paciência, pensei. Porém não podia ficar ali. Mudei de local. Fui de fininho para o outro lado da casa, onde imaginei que pudesse ter sossego. No mínimo, não podia compartilhar com aquilo que eu via.

Ledo engano. Cheguei a um local onde corria solta a sessão de piadas. Aquelas anedotas que são contadas em baixa voz, pra não chamar a atenção dos outros. Piadas de velório. E as pessoas riam a valer. Logicamente sem gargalhadas, pra não dar o que falar. As famosas risadinhas de velório. Era uma piadinha atrás da outra, e os componentes do grupo morrendo de rir. Cada qual queria contar uma mais apimentada. Com todo respeito ao morto, diziam. E eu ali, não querendo ouvir, mas ouvindo. Não querendo rir, mas fazendo um esforço medonho pra não entrar na deles.

Nessas alturas dos acontecimentos, lembrei-me de que eu estava num velório. Aliás, o velório do meu amigo Bonifácio. Por esse motivo retomei a pose e fiquei sisudo, sem dar o braço a torcer. E decidi ir embora antes do enterro. Fiz uma oração e encomendei a alma do Bonifácio, para que ele pudesse repousar em local sereno e longe da influência do “Trem ruim”. E dei o fora.

Elson Oliveira
Elson Gonçalves de Oliveira foi professor de Língua Portuguesa, é advogado militante e escritor, com vários livros publicados.
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