O vendedor de alegria

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Olha o palhaço, aí, gente!…

– Hoje tem, hoje tem!…

– Tem sim, sinhor!…

– Carrapato no trem!…

– Tem sim, sinhor!…

– Hoje tem espetáculo?

– Tem sim, sinhor!

– Hoje tem balacobaco?

– Tem sim, sinhor!…

Pelo menos os da geração antiga, quem não se lembra desse ritual, à tardezinha ou começo de noite, promovido pelos profissionais do riso acompanhados da molecada, nas corrutelas desse Brasil de meu Deus?

Não me envergonho de dizer que eu jogava nesse time. Pelo contrário. Tenho orgulho e saudades desse tempinho tão bom, que não volta mais. A recompensa de acompanhar o palhaço era a entrada de graça no circo. E alguém de nós tinha lá alguma moeda no bolso pra pagar a entrada? E algum de nós admitia ficar de fora desse balacobaco? Nem pensar!…

Era muito divertido. O palhaço fazia graças e mais graças e a gente ria a valer, dava piruetas e respondia em coro às perguntas aleatórias do comandante do riso. A alegria fazia-se presente durante toda a maratona. Da rua de cima até a rua da lata, passando pela rua do sapo, mexendo com um morador aqui e outro ali, tudo era divertimento. Por isso, menino carrancudo e metido à besta, que não levasse um sorriso estampado no rosto não era digno de pertencer ao seleto grupo dos encarregados de convencer o povo a participar da noitada de espetáculo.

E quando um garoto chegava atrasado, encontrando os “filhos do palhaço” em número completo, a única solução viável pra não ficar fora da festança era passar debaixo do pano. Perigoso, isso era verdade, porque havia muito espião e vigia. Mas fazer o quê! Tratava-se de aventura de risco. Porém, o que não podia acontecer era ficar fora da função. De vez em quando, uma cacetada na testa, mas era previsível. Não doía, mas provocava um belo estalo, pra chamar a atenção e impedir a entrada clandestina.

Muita gente ia ao circo para torcer pelo touro, quando o circo era de tourada. Dava gargalhadas, na hora que via o peão cair e ser pisoteado pelo boi enfurecido. Nós, da ralé, gostávamos do palhaço, das suas piadinhas, das suas graças e das suas brincadeiras. Verdade também que muitos tinham certa cisma do palhaço grandalhão, aquele de pernas de pau. Mas enfrentavam assim mesmo, porque o circo era uma fascinação. O desejo superava o medo.

Certa vez, perguntei a um palhaço por que a predileção por pessoas carecas ou de cabelos brancos. “Como assim?”, quis ele entender melhor a minha indagação. Eu disse que, uma vez no palco, os defeitos e as piadas de mau gosto são sempre endereçadas ao careca ou ao portador de cabelos brancos, sentado na arquibancada. Ao que ele respondeu, educadamente: “Os homens carecas ou os dos cabelos brancos são mais vividos e mais educados e entendem as nossas brincadeiras. O que seria do palhaço se não fossem os carecas e os senhores dos cabelos brancos?”.

Merecidamente o palhaço tem a sua data comemorativa. O Dia Universal do Palhaço é celebrado anualmente em 10 de dezembro. Os palhaços são artistas que têm como único objetivo divertir e despertar o sorriso das pessoas, sejam crianças, sejam adultos. A data foi criada para homenagear esses profissionais que ficaram populares através de suas participações em circos. Afinal, é inimaginável um circo sem palhaço. Mas em assim imaginando, certamente o circo seria uma atração sem atrativos e um palco de divertimentos sem riso e sem graça. Sobreviveria?

O Brasil é pródigo de palhaços memoráveis, como Bozo, Carequinha, Pimentinha, Picolino, entre tantos outros. Um dos nomes mais expressivos é o de Charlie Chaplin, conhecido como Carlitos, um dos artistas mais importantes da época do cinema mudo.

Em nosso país, o Dia do Palhaço começou a ser comemorado a partir do ano de 1981, por uma iniciativa do Abracadabra Eventos, em São Paulo. Atualmente, esta data é celebrada em todos os estados brasileiros, sejam por palhaços circenses ou pelos populares “palhaços de rua”.

Conta-se que certo dia entrou no ônibus um palhaço que ficou tentando alegrar as pessoas. Sem obter êxito, diga-se de passagem, porque ninguém estava a fim de rir dos seus gracejos. Nessa percepção, alguém começou a questionar intimamente: “Esse palhaço não está conseguindo fazer ninguém rir. Por que ele não desiste? Vai cuidar de sua vida e deixa os outros em paz!”. 

Mas essa mesma pessoa sentiu uma voz em seu interior que dizia: Ele não consegue fazer as pessoas rirem, porém não desiste, porque acredita naquilo que faz. Pode ser que a pessoa esteja segurando e sufocando o riso, não permitindo que se manifeste através dos lábios”.

Sim, acreditar no que faz. Eis a meta, a mola propulsora das conquistas de cada um de nós. De fato, precisamos acreditar naquilo que fazemos, na nossa capacidade, na nossa força e na nossa determinação. E acima de tudo, cultivar esperança. É que se a gente inicia um projeto tomado pelo desânimo, achando que aquilo não vai dar certo, dificilmente o êxito será alcançado.

No episódio do palhaço, acima narrado, é verdade que ele tinha um objetivo, tinha uma meta a alcançar e acreditava piamente no que estava fazendo. Ele queria alertar as pessoas sobre a importância da caridade, da generosidade, da atenção ao próximo e por que não dizer, da alegria. Ele acreditava que mesmo não fazendo as pessoas rir, poderia transmitir sua mensagem.

E nós? Será que somos determinados naquilo que decidimos a fazer e a viver? Será que vamos até o fim nas nossas escolhas, nos nossos sonhos, no nosso trabalho, na nossa família, nos nossos projetos?

Ainda mais, a determinação está muito relacionada com a esperança. Só posso ser determinado se tenho esperança, porque é ela, a esperança, que direciona os nossos atos para a determinação. Sem esperança, ficamos pelo caminho: sem força, sem conseguirmos avançar, sem ânimo para buscar nossos objetivos. É como um automóvel que sai com destino a um determinado lugar, mas acaba ficando na estrada por falta de combustível.

Deus abençoa as pessoas decididas e determinadas, pois elas demonstram confiança n’Ele. Outra coisa: Sabia que o demônio tem medo das almas determinadas?

Parabéns a todos os palhaços, tanto os da minha infância quanto os hodiernos que, mesmo nos momentos difíceis, com o coração muitas vezes em pedaços, ainda conseguem fazer o seu semelhante sorrir e sair do marasmo em que eventualmente se encontra, para o mundo da fantasia e da alegria! Não se pode esquecer de que palhaço também tem família, tem problemas, tem sofrimentos e tem de matar muitos leões no dia a dia para sobreviver.

Olha o palhaço, aí, gente!…

– Hoje tem, hoje tem!…

– Tem sim, sinhor!…

– Carrapato no trem!…

– Tem sim, sinhor!…

– Hoje tem espetáculo?

– Tem sim, sinhor!

– Hoje tem balacobaco?

– Tem sim, sinhor!…

* Texto publicado pelo Diário de Goiás

Elson Oliveira
Elson Gonçalves de Oliveira foi professor de Língua Portuguesa, é advogado militante e escritor, com vários livros publicados.
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