Luiz Signates: Goiânia é de fato oposição? Motivos do voto municipal

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Provocado pelo Massa e Poder, o professor Luiz Signates respondeu à pergunta: Goiânia é oposição? A quem?. Confira a resposta.

Goiânia é de fato oposição? Motivos do voto municipal

O repto de um jornalista do porte de Vassil Oliveira não tem como ficar sem ser atendido, ainda que o desafiado não tenha a mesma competência do desafiante.

A ideia de que Goiânia vota contra o governador é uma evidência histórica. Nesse sentido, não parece ser lenda, no sentido de crença ou tese pouco evidente ante os fatos.

E, o que parece mais interessante, trata-se de uma regularidade eleitoral que parece independer do grau de aprovação dos governadores e de seus mandatos. Iris e Marconi já foram quase unanimidades eleitorais, em seus tempos áureos, e, mesmo assim, amargaram derrotas dos candidatos que apoiaram na Capital.

Resta, pois, saber por que isso acontece. Há uma tese, bastante reiterada, que elogia a democracia e festeja o que seria uma espécie de “sabedoria” do eleitorado goianiense, que resistiria a entregar o poder total do Estado a quem quer que seja. É uma proposição sem dúvida sedutora, e, pelo amor que tenho à democracia, confesso que torço para que esteja certa.

Há, contudo, outros elementos a serem considerados, em qualquer eleição majoritária, e que se tornam mais agudos, nos pleitos municipais.

O primeiro deles é o que constatei em todas as qualitativas que fiz ao longo dos últimos 20 anos, em pelo menos quatro estados da federação brasileira: o eleitor brasileiro vota em suas próprias condições de vida, ao indicar um prefeito. Ele não está interessado em ideologias ou pautas morais, como quando vota em parlamentares ou, em circunstâncias bastante específicas, em presidentes.

Há analistas que até radicalizam: o eleitor vota no próprio bolso. Eu não reduziria a tanto assim, pois o cidadão dono do voto afere também as condições de atendimento dos equipamentos públicos, dos quais ele depende tanto mais quanto mais baixa seja sua classe social. Coisas triviais como buracos no asfalto, atendimento no posto de saúde e condições de funcionamento da escola dos filhos são variáveis muito mais relevantes do que quaisquer outras, para o juízo do eleitor na hora de votar no seu prefeito.

Outro fator de grande relevância é consequência deste anterior: a imagem de aprovação ou reprovação do mandato em curso. Vota-se num candidato a prefeito com um olho fixo em quem pleiteia o cargo e outro, mais atento ainda, no gestor em atuação e, nesse sentido, o eleitor opta pela continuidade ou pela mudança.

Tais fatores combinados afastam várias hipóteses, usualmente aventadas por analistas. Uma delas é a contaminação dos elementos da eleição imediatamente anterior. O Brasil vai às urnas a cada biênio, o que é muito breve e, por isso, não é raro que nomes das disputas nacional e estadual se tornem alvos de busca por apoio nas eleições municipais imediatamente seguintes.

Hoje, em Goiânia, por exemplo, não há pesquisa que não indague ao eleitor se ele votaria em alguém indicado por Caiado ou Bolsonaro. Perguntado, o eleitor responde, conforme as preferências que de fato tenha nesses nomes mais amplos, entretanto, a questão é: ele vota mesmo? De novo, as quali que tenho feito, que buscam entender a fundo “como”, e não apenas “em quem”, o cidadão vota, permitem-me responder a essa indagação com um sonoro “não”.

Ao votar a prefeito, o eleitor é prático: quer saber se o candidato irá beneficiá-lo. E, para avaliar isso, pondera a imagem do prefeito que se encontra no cargo. Um prefeito tido pela população como um mau gestor, por exemplo, levará o eleitor a preferir um candidato de oposição que tenha exatamente o perfil de gestão. Ponto.

Fosse verdade que o bolsonarismo seria nodal para eleições municipais e Anápolis, por exemplo, terra natal do governador Caiado e que sufragou Bolsonaro em 2022, jamais colocaria um petista de quatro costados, como Antônio Gomide, na frente de suas preferências eleitorais este ano. O que determina Gomide? A lembrança de sua gestão de anos atrás e o olhar mudancista no julgamento do atual prefeito. O resto é isso mesmo que o nome diz: resto, algo cuja qualidade não altera o principal e cuja quantidade tende a ser irrelevante.

A questão inicial, portanto, permanece. O que faz Goiânia votar contra o governador? Talvez sejam mais as más escolhas desses governantes, quando optam por candidaturas impulsionados mais pela refrega de bastidores do que no ânimo da população. De todo modo, fica o alerta: para obter o voto para prefeito, é preciso ter algo mais do que o pedido de alguém acima. Faz-se imprescindível sintonizar a proposta com a expectativa do eleitorado.

Enfim, o bom candidato a prefeito é aquele que faz as pessoas sonharem com uma vida melhor. Aliás, desde os gregos da Antiguidade, esse é o principal sentido da política nos ambientes democráticos.

* Luiz Signates É Pesquisador Produtividade 2, do CNPq. professor associado IV da Universidade Federal de Goiás, junto ao Mestrado/Doutorado em Comunicação, na linha Mídia e Cidadania e docente efetivo do Mestrado/Doutorado em Ciências da Religião, na linha Cultura e Sistemas Simbólicos, da Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Leciona também nos Cursos de Jornalismo de ambas as instituições. É Pós-Doutor em Epistemologia da Comunicação (Unisinos), Doutor em Ciências da Comunicação (USP), Mestre em Comunicação (UnB), Especialista em Políticas Públicas (UFG) e graduado em Comunicação Social – Jornalismo (UFG). 

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